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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Pré-socráticos nas obras de Filodemo de Gádara

 AS FONTES PARA OS PRÉ-SOCRÁTICOS NOS PAPIROS HERCULANENSES[1]

 

José Aristides da Silva Gamito[2]

 

1.    Introdução

 

Os pré-socráticos são aqueles primeiros filósofos que viveram entre os séculos VII e V antes da era comum. São eles que inauguraram a história da filosofia na Grécia, no entanto, por causa das poucas obras em fragmentos que chegaram até nós existe uma dificuldade em compreender suas teorias. A dificuldade do acesso passa a impressão de que eles são menos importantes.

Existe um esforço em recuperar suas teorias por meio de fragmentos e de testemunhos de outros autores antigos. As fontes são de dois tipos: os fragmentos que são citações dos pré-socráticos em outras fontes e os testemunhos que são explicações que outros autores deram sobre suas ideias. Além de Platão e Aristóteles que dependeram de explicar algumas ideias dos pré-socráticos para depois apresentar suas próprias doutrinas, temos Entre 75 e 50 a. c. - Sýntax ton philosóphon de Filodemo de Gádara, entre 55 e 43 a. c. – testemunhos de Cícero. No século II d. C. – Sexto Empírico. No século III d. C. – Vidas e Opiniões dos Filósofos Ilustres de Diógenes Laércio.

Para quem já se aventurou na história da filosofia já se deparou com esses primeiros comentadores ou compiladores de filósofos antigos.  Quero aprender as fontes menos conhecidos e supreendentes que vieram dos papiros herculanenses que foram encontrados na Itália no século XVIII.

Nas obras do epicurista Filodemo de Gádara encontramos testemunhos sobre cerca de 40 pré-socráticos. O pesquisador Christian Vassallo fez um trabalho de levantamento dessas fontes recentemente, vou apresentar uma síntese de parte desse material. Além das obras De Rhetórica, De Pietate, Filodemo foi o primeiro a escrever uma história da filosofia.  A obra chamada de Sýntax ton philosóphon continha as seguintes seções:

 

a)      A História da Academia ou Academicorum Index (PHerc. 1691/1021 e PHerc. 164);

b)      A História da Stoá ou Stoicorum Index (PHerc. 1018);

c)      A História do Jardim ou Epicureorum Index (PHerc. 1780);

d)     A História de Sócrates (PHerc. 495 e PHerc. 558).

e)      A História da Escola Pitagórica (PHerc. 1508).

f)       A História das Escolas Eleata e Atomista (PHerc. 327).

 

A seguir transcrevemos e traduzimos alguns testemunhos sobre os pré-socráticos nas obras de Filodemo de Gádara:

 

2.    Os pré-socráticos nos papiros herculanenses

 

I – DE RHETÓRICA. O Livro IV da Retórica de Filodemo que se encontra nos papiros PHerc. 1423 e PHerc. 1673/1007 apresenta os seguintes testemunhos:

 

Nº

Pré-socrático

Testemunho

01

Anaxágoras de Clazômena

“todas as coisas estão no todo”

02

Metrodoro de Quio - atomista

“o não saber e o nem saber é a mesma coisa”

03

Parmênides de Eleia

“o todo seja um e que o fato das sensações é enganoso”

04

Nausífanes de Téos

Só referência

(VASSALLO, 2015).

 

II – DE PIETATE. Filodemo apresenta as opiniões de vários filósofos nessa obra sobre teologia e critica a posição dos pré-socráticos. É uma obra importante para entender a relação entre ateísmo e crenças em deuses na antiguidade. Estão no PHerc. 1428.

 

Nº

Pré-socrático

Testemunho

01

Anaxímenes de Mileto

“Deus é ar”, “ele erroneamente concebe Deus como desprovido de sensibilidade”.

02

Anaxágoras de Clazômena

“é por casa da Mente que impõe ordem ao universo que o movimento sempre esteve, é e será” [...] “a Mente regula e governa todas as coisas”. “dá a impressão de eliminar os deuses”.

03

Pitágoras de Samos

Os deuses não falam, nem ouvem e nem têm tamanho, beleza ou forma.

04

Xenófanes de Cólofon

“Deus move todas as coisas e de maneira nenhuma é movido por outras coisas”.

05

Parmênides de Eleia

Pensou o primeiro Deus como inanimado.

06

Empédocles (?) de Agrigento

Prestou culto aos deuses.

07

Demócrito de Abdera

Zeus não tratava com desprezo as coisas humanas.

08

Heráclito de Éfeso

“Deus é fogo”, “Zeus governa tudo” e todos os opostos coincidem com o divino.

09

Diógenes de Apolônia

Elogiou Homero por falar dos deuses sem mitologia. Homero acreditava que Zeus era ar.

 

Pródico de Ceos e Deágoras

Os deuses não existem (Pródico). Os deuses eram todos bons (Deágoras).

(VASSALLO, 2018).

 

III – HISTORIA PHILOSOPHORUM. Nesta obra Filodemo desenvolve uma síntese da história da filosofia até o século I antes da era comum. De seu testemunho sabemos que:

 

Nº

Pré-socrático

Testemunho

01

Parmênides de Eleia

«(várias linhas faltando) então, estes [são os fatos relativos ao seu (scil. Vida de Parmênides. No que diz respeito ao seu pensamento, por outro lado, ele (scil. Parmênides) foi o primeiro a sustentar, contra as crenças] de Xenófanes, que [a Terra] tem uma forma esférica. Na verdade, Xenófanes, em vez disso, pensou que (scil. a Terra) afunda suas raízes no infinito] (várias linhas faltando)”

02

Xenófanes

Parece que acreditava que a Terra se estendia ou se confundia como infinito.

(VASSALLO, 2014).

 

Referências:

 

VASSALLO, Christian. Xenophanes in the Herculaneum Papyri Praesocratica Herculanensia IV. Archiv für Papyrusforschung 60/1, 2014.

______________. Testimonianze su Anassagora e altri Presocratici nella Retorica di Filodemo. Lexicon Philosophorum 3, 2015.

_____________. The ‘Pre–Socratic Section’ of Philodemus’ On Piety: A New Reconstruction Praesocratica Herculanensia X. Archiv für Papyrusforschung 64/1, 2018.

 

Referências sobre os pré-socráticos:

 

BORNHEIM, Gerd A. Os pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998.

 

COLLI, Giorgio. La sabiduría griega II. Tales. Anaximandro. Anaxímenes. Madrid: Trotta, 2008.

 

___________. La sabiduría griega III. Heráclito. Madrid: Trotta, 2010.

 

LAMI, Alessandro. I presocratici: testemonianze e frammenti da Talete a Empedocle. Milano: Rizzoli, 1995.

SOUZA, José Cavalcante de (Org.). Pré-Socráticos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

 



[1] Notas de pesquisa sobre epicurismo e Filodemo de Gádara.

[2] Professor de filosofia e mestre em ciências das religiões. E-mail: joaristides@gmail.com.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Artigo publicado

 FILOSOFIA DA RELIGIÃO EM EPICURO

UMA ABORDAGEM NATURALISTA DA CRENÇA EM DEUS

Resumo

A filosofia da religião de Epicuro de Samos procura resolver três problemas sobre a existência dos deuses e sobre a religião pública: a origem da crença na existência dos deuses, a intervenção deles no mundo e a função do culto religioso. Em comparação com a Epistemologia Reformada que discute a racionalidade das crenças religiosas, Epicuro sustenta que a crença na divindade se origina por meio de uma prolépsis natural que sugere que os deuses são felizes e imortais. As teses de Epicuro trazem como consequência uma redefinição da função da religião visto que os deuses não causam malefícios e nem benefícios aos homens e nem interferem no mundo.

Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rbfr/article/view/38866/30746

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Epistemologia Social

 CRENÇA COLETIVA

A epistemologia social investiga como as crenças de grupo são formadas e como podem ser atribuídas. Segue uma definição do que são crenças coletivas.

No discurso do cotidiano frequentemente nós nos referimos a crenças de um grupo de pessoas. Dizemos coisas como “a União acredita que a greve foi bem sucedida” e “na opinião do governo a guerra é inevitável”. Como essas declarações devem ser interpretadas? Elas implicam a existência de uma “mente de grupo”?

Muitos acreditam que a soma simples (ou agregação) é a análise correta. Isso quer dizer: eles defendem que um grupo acredita que p se e somente todos os ou a maioria dos membros acreditam que p (veja, por exemplo, QUINTON, 1975, p. 9-17).

Uma análise relacionada a isso que tem sido considerada é a seguinte: um grupo acredita que p se e somente se todos os membros ou a maioria acredita que p e este é um conhecimento comum ao grupo (GILBERT, 1987; 1989, veja também BACH e HARNISH, 1979, p. 270). (“Conhecimento comum” é um termo de Lewis, 1969).

Nenhuma dessas análises lida com os casos esses que seguem. Um comitê tem de alcançar um consenso sobre uma matéria, por exemplo, se a tarifa deve ser aumentada. Somente um indivíduo acredita que a tarifa deve ser aumentada, mas ele é temido pelos outros e eles o acompanham votando a favor do aumenta da tarifa. Parece que podemos dizer que na visão do comitê a tarifa deve ser aumentada. Se for assim, a análise de crença de grupo em termos do que a maioria dos membros acredita não pode estar correta em todos os casos.

Uma análise alternativa tem sido proposta segundo a qual, a grosso modo, um grupo acredita em algo se e somente se os membros entendem que eles estão comprometidos conjuntamente a sustentar a crença em questão como um corpo. Assim quando falam como membros do comitê indivíduos podem expressar a visão do comitê em vez de suas crenças pessoais (Para detalhes ver GIBERT 1987, 1999).

Visto que crença de grupo nesse sentido é um fenômeno comum, a investigação empírica precisará de uma sensibilidade especial para determinar se um indivíduo está se expressando como grupo ou crença pessoal em determinada ocasião. E a epistemologia de crenças coletivas nesse sentido requer uma investigação especial.

 

Tradução do verbete collective belief de Margaret Gilbert no manual A Companion to Epistemology (2010) por José Aristides da Silva Gamito.

sábado, 22 de maio de 2021

Metodologia da Pesquisa em Filosofia III

 II - EXERCÍCIO DE LEITURA DE UM TEXTO FILOSÓFICO

Da leitura ao comentário de um texto filosófico


3.1. DIRETRIZES DA LEITURA ANALÍTICA:

 

Segundo o esquema proposto por Severino, podemos seguir as etapas abaixo na leitura analítica de um texto:

 

1.      Análise textual.

2.      Análise temática.

3.      Análise interpretativa.

4.      Problematização.

5.      Reelaboração reflexiva (comentário).

 

Para a assimilação do método de leitura analítica, propomos o estudo de três textos da filosofia antiga: Carta a Meneceu de Epicuro (nível simples), a Metafísica (nível complexo) e Apologia de Sócrates (nível intermediário). 

 

3.2. TEXTO A SER LIDO:

 

1ª Delimitação do texto – sempre quando vamos fazer uma leitura analítica de um texto devemos delimitar um trecho. Em seguida, devem-se enumerar os parágrafos para facilitar a localização das passagens.

2ª Elaboração da ficha de leitura – para compreensão da obra é importante ter as informações gerais do texto e do autor. Considera-se neste passo também o contexto.

 

A - CARTA A MENECEU:

 

Ficha de leitura:

Tema: Felicidade.

Área: Ética.

Bibliografia: SAMOS, Epicuro de. Carta a Meneceu. Tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 2020.

Autor: Epicuro de Samos (341-270 antes de Cristo).

Gênero literário: carta instrutiva / epístola didática.

Escola: epicurismo.

  Epicuro envia suas saudações a Meneceu

 

1.      Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

2.      Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

3.       Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses, ímpio não é quem rejeita os em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons.

4.      Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.

5.      Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efémera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

6.      Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

7.      Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora deseja como descanso dos males da vida.

8.      O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

 

3º passo - Depois de uma leitura panorâmica, devemos identificar os conceitos, palavras-chave, autores e teorias. Podemos assinalá-los no texto e anotar numa folha de rascunho. Os autores e conceitos que são citados, mas, não são apresentados ou devidamente explicados devem ser esclarecidos através da consulta de dicionários e manuais.

 

Epicuro envia suas saudações a Meneceu

 

9.      Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

10.  Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

11.   Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses, ímpio não é quem rejeita os em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons.

12.  Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.

13.  Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efémera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

14.  Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

15.  Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora deseja como descanso dos males da vida.

16.  O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

 

4º passo - Agora é o momento de esquematizar o texto para se ter uma noção geral da sua estrutura e temas gerais.

 

a)      Epicuro faz equivaler a atividade filosófica ao tempo de ser feliz. É justamente porque ele entendia que conhecimento ajuda a aprender a viver bem.

b)      Em seguida, ele cita duas condições que ameaçam os homens: os deuses e a morte.

c)      A respeito dos deuses, ele tem uma visão deísta. Os deuses felizes e importais e não se ocupam dos problemas humanos. Portanto, eles não nos fazem males.

d)     A morte é a privação das sensações. Não devemos temê-la. O sentimento de medo da espera da morte é pior do que o próprio fato de morrer.

e)      Conclusão: O sábio não teme viver e nem teme morrer.


3.3. COMENTÁRIO:

A função terapêutica da filosofia

 

Epicuro inicia sua carta a Meneceu discorrendo sobre a função da filosofia. Ela tem um propósito sapiencial e terapêutico em sua dimensão ética. Não existe restrição de idade para se dedicar à filosofia por se tratar de um conhecimento necessário para toda a vida. Em todas as idades, precisamos de sabedoria para viver bem e alcançar a felicidade.

Há dois procedimentos que Epicuro recomenda para viver bem cada idade. Quem está envelhecendo se consola através da grata recordação das coisas que viveu. A memória tem uma função consoladora na biografia do sábio. Ao jovem, ele pode aprender a não sentir medo das coisas futuras. A ocupação mais importante da vida do sábio deve ser com as coisas que se referem à felicidade e a filosofia trata disso.

Em seguida, Epicuro tenta dissipar dois medos que podem atormentar a vida e impedir a felicidade. Eles têm a ver com a vida além da natureza e além do tempo. O primeiro é o medo que os gregos tinham da punição dos deuses, do destino. Embora, injustamente, muitos antigos autores consideravam Epicuro ateu, isso não é verdade. Ele acreditava na existência dos deuses. Porém, faz uma crítica à visão popular sobre os deuses e se posiciona como um politeísta deísta. É uma visão quase única na antiguidade. Ele rejeita a ideia de providência e de interferência dos deuses no mundo. Eles são felizes, imortais e se bastam a si mesmos. Então, não fazem mal aos homens. Um ser plenamente feliz não tem motivação para causar danos aos outros. O conceito de deus de Epicuro é um além do bem e do mal. Os gregos antigos viviam atormentados porque tinham crenças falsas sobre a natureza dos deuses no entender de Epicuro.

Já que não há motivo para temer a deus, como enfrentamos a morte? Ela é o medo mais universal. O bem e o mal residem nas nossas sensações corporais. Se nós tememos sofrimentos, a morte é justamente a privação de todas as sensações. Então, ela não é um mal. Além disso, é um fenômeno que não podemos vivenciá-lo já que ocorre estando nós inconscientes. Morte e homem não se encontram.

A atitude do sábio diante da vida é esta: Ele não despreza a vida e se esforça para vivê-la bem, mas também não teme a morte. Aliás, Epicuro até censura o suicídio. A máxima conclusiva de Epicuro é “viver não é um fardo e não-viver não é um mal.”

 

A - Palavras-chave: filosofia, felicidade, temor aos deuses, medo da morte.

B - Problematização: A filosofia pode ter um efeito terapêutico sobre os grandes medos? Quais os argumentos favoráveis à função terapêutica da felicidade?

 

Bibliografia

ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. Rev. atual. São Paulo: Moderna, 2003.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 12ª ed. São Paulo: Paulus, 2001