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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Eclesiastes e helenismo


6 – APROXIMAÇÕES ESTOICAS E EPICÚREAS DO COHÉLET



Muitas especulações foram feitas a respeito da temática comum do livro do Antigo Testamento, o Cohélet ou Eclesiastes, e a filosofia helenista. É difícil demonstrar uma influência de filósofos gregos direta sobre o autor deste livro. Embora, a data mais recente para a sua composição, de 350 a 180 antes de Cristo[1], coincida com um período de influência helenista sobre Israel. Mas outras datas mais antigas são propostas. As éticas helenistas se inserem na tradição filosófica grega e o Cohélet, na Hokhmah, a tradição sapiencial judaica. Neste texto, vou considerar apenas uma coincidência de temas.
O livro do Cohélet tem muitas idéias afins ao estoicismo e a o epicurismo. Mas também com o ceticismo de Arcesilau e com os filósofos cínicos.[2] Vamos identificar alguns temas do Cohélet e sua relação com as éticas helenistas:
1.       Transitoriedade: O Cohélet considera tudo na vida como transitório (Ecl 1,2). As gerações se sucedem, mas a terra permanece a mesma (1,3). Marco Aurélio compartilha este pensamento estóico dizendo que tudo ao mesmo desde sempre, não importa e alguém vive cem ou duzentos anos (Med., II, 14).
2.       Não há legado. A morte de algum modo é boa porque faz cessar o sofrimento. O Cohélet reclama que a sorte dos mortos é melhor do que dos vivos. O homem e o animal têm o mesmo destino (Ecl 3, 19). Epicuro de Samos também aconselha para não temermos a morte justamente por ela ser a extinção de todas as sensações. Cícero, um pensador eclético, considera igualmente a morte como um bem.
3.       Acúmulo de bens. Não há vantagem em ser rico e conquistar muitas coisas, tudo é vaidade (Ec2). O sábio e o insensato têm o mesmo destino.Além disso, a morte é o destino certo para os bons e os maus (Ecl 9,2). O Cohélet louva a obediência aos mandamentos e o estóico e epicurista, a razão.
4.       O prazer é o fundamento da felicidade. Segundo o Cohélet, “a felicidade do homem é comer e beber” (Ecl 2,3). Esta constatação coincide com os fundamentos do epicurismo. Epicuro defendia que o prazer era o princípio da felicidade. O Cohélet repete esta fórmula mais duas vezes: “não há felicidade a não ser no prazer e no bem-estar” (Ecl 3,12); “não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se” (Ecl 8,15). A mesma alternativa aparece, indiretamente, uma terceira vez, quando ele afirma que resta ao homem comer, beber, alegrar-se, perfumar-se e desfrutar com sua amada (Ecl9, 7-9).
5.       O controle das emoções.  A agitação do desejo traz sofrimento. Mas vale contar com o que se tem diante dos olhos (Ecl 6,9). O estoicismo possui o conceito de representação. Não devemos nos prender na representação, na expectativa que fazemos do mundo. A realidade não obedece nossos desejos.
6.       A importância da sabedoria. O conhecimento e a reflexão ajudam a reconhecer o mal (Ecl 7, 26). Seguir os mandamentos é a solução da vida virtuosa (Ecl 8,5). Os epicuristas e os estoicistas consideram que a razão e a reflexão auxiliam o homem a viver uma vida moral correta. Para Cícero, a vida virtuosa é inclinar-se para os bens verdadeiros.
Concluindo, o Cohélet concorda com o epicurismo ao colocar a felicidade nos prazeres naturais como a comida e a bebida. Assim como a reflexão é importante para os filósofos helenistas, observar os mandamentos também é importante para o Cohélet. Com o estoicismo, o Cohélet compartilha a idéia de que não se deve apegar aos prazeres e as vantagens do mundo porque tudo é vaidade. Todas as nossas conquistas serão apagadas com a morte. Muito desejo causa sofrimento. Portanto, o homem deve se contentar com os prazeres naturais e observar os mandamentos para viver bem.

Textos:

Bíblia de Jerusalém.
GAMMIE, John. Stoicism and Anti-Stoicism in Qoheleth.Tulsa, p. 174.




[1]GAMMIE, John. Stoicism and Anti-Stoicism in Qoheleth.Tulsa, p. 174.
[2]GAMMIE, John. Stoicism and Anti-Stoicism in Qoheleth.Tulsa, p. 174.


O poder da enkráteia


 5 – A RESISTÊNCIA DO SÁBIO CÍNICO



O movimento cínico foi um dos movimentos filosóficos mais impactantes da antiguidade. Vamos buscarem Diógenes de Sinope, o cínico por excelência, as orientações para a vida feliz.

A felicidade é viver de acordo com a natureza; (2) a felicidade é algo disponível para qualquer pessoa disposta a se dedicar a um treinamento físico e mental suficiente; (3) a essência da felicidade é o autodomínio, que se manifesta na capacidade de viver feliz mesmo nas circunstâncias mais seriamente adversas; (4) autodomínio é equivalente a, ou envolve, um caráter virtuoso; (5) a pessoa feliz, assim entendida, é a única pessoa verdadeiramente sábia, nobre e livre; (6) as coisas convencionalmente julgadas necessárias para a felicidade, como riqueza, fama e poder político, não têm nenhum valor na natureza; (7) os principais impedimentos à felicidade são falsos juízos de valor, juntamente com as perturbações mentais e o caráter vicioso que derivam desses juízos falsos.

            Primeiramente, a fórmula da felicidade é viver de acordo com a natureza e é uma condição que está ao alcance de todos.  Além disso, podemos ser feliz nos tempos bons e nas adversidades. Através do autodomínio, desenvolvem-se todas as virtudes. Os falsos juízos de valor nos impedem de ser felizes. Os cínicos tinha desprezo pelas convenções sociais, pela riqueza e pela fama. Neste ponto, todas as éticas helenistas estão de acordo, a riqueza não traz felicidade.
            O autodomínio (enkráteia) é o exercício mais forte na ética cínica. Vários filósofos gregos concordam que o autodomínio ajuda o homem viver bem, evitando atitudes indesejáveis. O sábio cínico levava muito a sério o autodomínio. Ele se abstinha de todas as necessidades supérfluas, era indiferente a tudo que é convencional, mundano. No lugar de se preocupar com vantagens, riquezas e famas, o cínico concentrava seus esforços em controlar seus instintos e paixões. Os estoicos também recomendava isso também. Vencer a si mesmo deve ser a maior preocupação do sábio.
            Os cínicos consideravam os animais como os grandes exemplos de bem viver. Eles procuram somente o necessário para a sua vida. Estes filósofos são chamados exatamente de cínicos, de kyon “cão”.  Isso nos leva ao segundo conceito mais importante do cinismo, a autossuficiência. Isto é, bastar a si mesmo, não ter muitas necessidades e preocupações. O homem sábio deve ser totalmente livre das circunstâncias.
            Podemos notar algumas coincidências entre a filosofia helenista e a tradição bíblica. O livro do Eclesiastes apresenta temas comuns ao estoicismo e ao epicurismo. Nesta direção, alguns estudiosos já indicaram também uma semelhança entre Jesus e os filósofos cínicos. Jesus desaconselhava o acúmulo de riqueza, a resistência interior e orientava que a cada dia basta a sua preocupação.

Textos:

DIAS, Rafael Parente Ferreira Dias. A importância da felicidade na filosofia cínica. Griot– Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia – Brasil, v.10, n.2, dezembro/2014.

A atitude adoxástica


4 - O ENFRENTAMENTO DAS AFLIÇÕES E A SUSPENSÃO DAS OPINIÕES



O ecletismo foi um dos movimentos filosóficos do período helenista que tendem absorver um pouco de cada ética. Um dos principais representantes desta filosofia é o escritor romano Cícero (106-43 a. C.).  O filósofo considerava que o domínio de si é a grande força para se viver uma vida virtuosa. Existem muitos bens, mas o homem e a mulher devem se centrar nos bens da alma.  As riquezas e a fama são desaconselhadas.
A força de vontade (tensão) é o impulsor do autodomínio. Mesmo tendo um claro propósito de sempre buscar o bem, a pessoa precisa de exercitar a virtude, ter o auxílio dos outros e procurar a conversação anterior. Cícero não acreditava no sábio perfeito. A tranquilidade, grande meta das éticas do helenismo, também é recomendada pelos ecléticos.  O homem precisa utilizar o autodomínio para enfrentar a dor e o sofrimento. A aflição diante do sofrimento só aumenta os males. O que mais nos aflige são ideias que temos sobre o sofrimento, se buscarmos a reflexão superaremos melhor.
O ceticismo foi um movimento filosófico que questionava os limites do conhecimento, mas também que gerava uma atitude ética. Pirro de Élida foi o iniciador desta filosofia. Segundo uma citação de Eusébio de Cesareia, o fundador do ceticismo dizia que quem deseja ser feliz deve examinar a natureza das coisas. Elas são indiferenciadas, instáveis e indecidíveis.  Não devemos confiar nos sentidos. A atitude do cético é permanecer sem emitir opinião (adoxastos). Em geral, o preceito é viver na indiferença e na imperturbabilidade.

Texto:

CÍCERO. Disputas Tusculanas I e II.

Hedonismo epicurista


3 - O PRAZER COMO FONTE DE FELICIDADE



O epicurismo foi um movimento filosófico da antiguidade que valorizava o prazer como fonte da felicidade. Seu fundador foi Epicuro de Samos (341-270 a. C.). Uma das fontes para o conhecimento do pensamento de Epicuro é o livro X da obra As Vidas dos Filósofos de Diógenes Laércio. Os textos principais são a Carta a Meneceu, Carta a Heródoto, Carta a Pitocles e Sentenças Vaticanas.
Segundo Epicuro, “todo prazer, por sua própria natureza, é um bem, não tem que escolher todos”.  O comportamento instintivo de todos os animais são guiados para buscar o prazer e evitar a dor. Porém, quando se fala em prazer, muitos, logo, vão pensar no hedonismo de uma vida sem limites. Mas Epicuro entendia o prazer como “ausência de sofrimentos físicose de perturbações da alma”.
Os prazeres devem ser escolhidos com sabedoria. Existem muitas formas de prazer, mas nem todos devem ser procurados. Se a busca por um prazer causa a alguém mais males do que bem-estar, então, este é um prazer desaconselhável. A regra procurar prazeres que não impliquem grandes dores.
O impulso para a busca do prazer é o desejo. Epicuro ensinava que devemos saber classificar os desejos. Alguns são naturais e necessários, mas outros são naturais e não são necessários. Assim como existe uma terceira classe que envolve desejos que não são nem naturais e nem necessários.
Diferentemente do que uma mente contemporânea espera, a ética epicurista valoriza a parcimônia, a frugalidade. Os desejos de riqueza e de fama são prazeres transitórios e não-naturais. A regra da vida é não causar e nem receber nem um dano.

Textos:

SAMOS, Epicuro de. Carta a Meneceu. 130.

SAMOS, Epicuro de. Máximas Capitais. VIII.

Representação e Prudência


1.   AS REPRESENTAÇÕES NEGATIVAS



Em tempos de crise, vamos buscar consolações na filosofia. Epicuro de Samos (341-270) e Epicteto são filósofos da antiguidade que podem nos ajudar muito com seus conselhos morais. Epicuro é o fundador do epicurismo. Enquanto, Epicteto é um estóico. Apesar de terem concepções opostas, são éticas que podem atuar juntas.
Segundo Epicteto, “as coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas”. Em tempos de crise, devemos procurar manter uma opinião sobre os fatos que nos possibilitem encontrar a tranquilidade. A opinião que temos do sofrimento e da morte torna tudo mais difícil.
As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo a morte nada tem de terrível ou também a Sócrates teria se afigurado assim , m as é a opinião a respeito da morte de que ela é terrível que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves ou nos inquietarmos ou nos afligirmos, jamais consideremos outra coisa a causa, senão nós mesmos isto é as nossas próprias opiniões.[1]
A opinião sobre um acontecimento faz toda a diferença. Existem muitas possibilidades sobre o futuro. Se você escolhe se preocupar com as possibilidades menos relevantes, comprometerá o cuidado com o momento. Portanto, procure pensar na possibilidade de que as coisas vão ocorrer bem e esteja firme para fazer o que é necessário no tempo oportuno. O pensamento negativo sobre o futuro compromete nosso presente. Se superarmos as representações nocivas sobre os fatos, conseguiremos manter a nossa tranquilidade.
Diante das adversidades, Epicteto aconselhava a criar virtudes de resistência. Ninguém pode evitar alguns acontecimentos, mas pode trabalhar sua representação sobre eles sem os desejos. Não deixar ser afetados pelos acontecimentos é uma virtude. O mundo nem sempre corresponde aos nossos desejos. Portanto, somos nós que temos de adequar nossos desejos.[2] Só podemos mudar o que pode ser mudado e devemos nos conformar com aquilo que não pode ser mudado.
Com o pensamento positivo, teremos mais condições de tomar nossos cuidados. De acordo com Epicuro, a vida feliz depende da prudência.[3] Ser prudente é prever os futuros danos e se antecipar no cuidado. Muitas vezes, para termos prazer no futuro, devemos renunciar algumas coisas. A prudência manda a gente prevenir e saber medir as perdas e os ganhos. Não temos certeza do desenrolar das coisas, mas se agirmos com cautela, nós não teremos motivos para arrependimentos.

Textos:

EPICTETO. O Encheirídion de Epicteto.  São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2012.

EPICURO. Carta sobre a Felicidade. São Paulo: Editora UNESP, 2002.




[1] EPICTETO. O Encheirídion de Epicteto.  São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2012, p. 19.
[2]EPICTETO. O Encheirídion de Epicteto.  São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2012.
[3]EPICURO. Carta sobre a Felicidade. São Paulo: Editora UNESP, 2002. P. 45.

Introdução às éticas helenistas I


1.   OS SÁBIOS HELENISTAS



            Depois da morte de Alexandre Magno em 323 antes de Cristo, como resultado de seu domínio sobre os povos do Oriente, formou-se um tipo de cultura na antiguidade que chamamos de helenismo. Segundo Battista Mondin, helenismo é a “universalização da língua e da cultura grega, de sua expansão pelos países orientais”, impulsionada pelo império de Alexandre.[1] Depois de 322, inicia-se um período na história da filosofia chamado de pós-aristotélico ou helenista.
            A nova tendência dentro da filosofia neste período helenista, que se estende até século III depois de Cristo, foi marcada por discussões eminentemente éticas. Quatro movimentos filosóficos são notáveis nesta época: o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo, o ecletismo e o ceticismo. Por ora, vamos nos deter nas duas principais éticas daquele tempo. São a ética estóica e a ética epicurista. Estes movimentos transformaram a filosofia em algo prático. Eles atraíram muitos adeptos porque compreendiam a filosofia como arte de viver.[2]
            Comecemos pelo estoicismo. O iniciador do estoicismo foi Zenão de Cítio que viveu de 333 a 262 antes de Cristo. Esta escola filosófica teve várias fases e se estendeu do século IV antes de Cristo até o III depois de Cristo. Esta escola influenciou bastante a moral do cristianismo.
            Segundo a ética estóica, o objetivo da vida é a felicidade. Mas ninguém pode alcançá-la se não viver de acordo com a natureza. Viver segundo a natureza é conformar-se com a necessidade. O homem e a mulher para serem virtuosos eles devem ser governados pela razão. Eles devem manter uma harmonia interna entre a razão e as emoções. Estas duas dimensões humanas são extremas e opostas.
            A pessoa virtuosa deve superar as emoções, procurando ser indiferente às contingências da vida e sem se preocupar com aquilo que não está sob seu poder. Para o sábio estóico, uma noção importante para ser feliz é entender que existem acontecimentos que dependem de nós e há aqueles que não dependem. Portanto, dirija seu pensamento para aquilo que depende de você, evite se apegar àquilo que está sujeito às mudanças. Epicteto dizia que devemos nos comportar como se fôssemos um simples hóspede neste mundo.
            A primeira lição do estoicismo que vamos deixar aqui é apátheia. Trata-se do desapego das coisas e dos acontecimentos. Isso se faz anulando aquelas emoções que nos prendem ao que é passageiro. O filósofo Marco Aurélio aconselhava “não permitas que te arrastem os acidentes exteriores”. A pré-noção que temos delas nos aprisiona. Ainda nem aconteceu e já estamos sofrendo por antecipação. A vida feliz depende do desapego e da harmonia interior. Deixe-se ser guiado pela natureza, pela razão.

Textos:

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 1981.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Antiguidade e Idade Média. Volume I. São Paulo: Paulus, 2003.

SHARPLES, R. W. Stoics, Epicureans and Sceptics: An Introduction to Hellenistic Philosophy. London; New York: Routledge, 1996.



[1]MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 1981, p. 107.
[2] MONDIN, 1981, p. 108.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Racionalismo versus Empirismo


TEORIA DO CONHECIMENTO

I – RACIONALISMO E EMPIRISMO: O EMBATE MILENAR

1.      Introdução

Desde antiguidade há duas linhas epistemológicas em constante concorrência: O racionalismo e o empirismo. O racionalismo tem seu início com Platão e sustenta que a razão é a fonte do conhecimento. Os seus defensores acreditam na intuição. Uma das teses defendidas por racionalistas é a existência de ideias inatas. O conhecimento é garantido pela razão e pela lógica. São os principais nomes racionalistas: Platão, Agostinho, Descartes, Leibniz e, contemporaneamente, Noam Chomsky.[1]
O empirismo, por sua vez, tem suas origens em Aristóteles e afirma que a experiência é a fonte do conhecimento. Os sentidos são ativos no processo cognitivo. Não há nenhum conhecimento inato já que tudo passa pelos sentidos e vem do mundo exterior. Os principais empiristas são Aristóteles, Tomás de Aquino, Locke, Hume e Berkeley.

2. As origens do racionalismo em Platão
 
Esquema epistemológico de Platão.
O conhecimento em Platão tem como instância geradora a razão.  Com sua teoria da reminiscência, ele acredita que existem ideias inatas. O fundamento do conhecimento preexiste antes da experiência. Descartes herda esta concepção e a expõe de um modo mais radical, inaugurando o racionalismo moderno.
A constatação de que as coisas do mundo estão em constante mudança leva Platão a considerar que o conhecimento não pode ser adquirido na experiência do sensível. A sustentação do conhecimento verdadeiro só pode vir de ideias que são imutáveis. Elas existem no mundo inteligível. Sem esta contraparte imutável, não é possível obter conhecimento acerca da realidade.
Ao acessar as ideias imutáveis por meio da reminiscência, o cognoscente vai, gradativamente, atingindo o conhecimento por meio do pensamento. O método utilizado por Platão é a dialética. No Mênon, Sócrates aplica este método de perguntas e de respostas ao escravo para gerar o conhecimento (85b8-86c6). Nas palavras de Sócrates, Platão igual conhecimento e recordação.
Toda esta teoria do conhecimento é sustentada por uma teoria do mundo que crê que existe um mundo sensível e um inteligível. Este mundo sensível se caracteriza por se mutável e réplica do mundo imutável. Portanto, somente o conhecimento que se sustenta nos dados do mundo inteligível pode ser conduzir à verdade. A partir desta teoria, Platão lança as bases do racionalismo que influenciará toda a história da filosofia.


3. As origens do empirismo em Aristóteles
 
Esquema de Aristóteles.
A percepção sensorial tem o papel de iniciar o processo cognitivo na epistemologia de Aristóteles. O homem reconhece e distingue os objetos através da sensação e possui a faculdade de guardar na memória a aquilo que foi percebido quando o objeto já não está mais presente. A partir das características comuns entre os homens, temos a ideia de homem.
Todo o processo se inicia com a experiência. “As sensações são, por excelência, os instrumentos do conhecimento dos particulares, entretanto não nos dizem o porquê de nada” (Metafísica I, 981b).As sensações são o começo do conhecimento, mas é o intelecto que conduz ao conhecimento dos universais.
O Segundo Analíticos, 99b 35 a 100b 5, complementa demonstrando como se dá esse processo do conhecimento: “Assim, pois, do sentido surge a memória, como estamos dizendo, e da memória repetida do mesmo, a experiência: Pois as recordações múltiplas são uma única experiência” (100a). Os modos do ser surgem da sensação.Portanto, é na sensação que se inicia o processo cognitivo. Os seres humanos, diferentemente dos outros animais, são dotados de sensibilidade e de intelectualidade.[2]
No começo da Metafísica, anuncia-se a tendência de universalidade do saber compartilhado pelos homens. As sensações produzem conhecimentos relacionados à capacidade de recordar. Além dessas experiências compartilhadas pelos outros animais, os homens vivem de arte e de raciocínios. A experiência deriva da memória. A repetição de um mesmo objeto produz uma experiência (empeiría) única. Com o acúmulo dessas observações, formulamos um juízo geral que pode ser aplicável ao conjunto de casos semelhantes (Metafísica, I, 980a).
A prática aliada à arte produz mais efeitos para quem busca o conhecimento. Os empíricos possuem o conhecimento do puro dado e os homens de arte conhecem (981a). Os teóricos são mais sábios porque têm o conhecimento conceitual e das causas. As sensações são instrumentos somente de conhecimentos particulares, não garantem a explicação das causas.
A sapiência (sophia) é, portanto, a ciência sobre os princípios (archás) e sobre as causas (aitías) dos seres e dos objetos da realidade (982a). Assim também se define a epistéme. Por isso, perguntamos o que Aristóteles entende com princípios e causas?
Princípio (arché) significa “a parte de alguma coisa de onde se pode começar a mover-se”; “o melhor ponto de partida para cada coisa”; “parte originária e inerente à coisa a partir da qual ela deriva”; “a causa primeira do movimento e da mudança”; “aquilo cuja vontade se movem as coisas e mudam as coisas que mudam”. Enfim, “o ponto de partida para o conhecimento de uma coisa” (Metafísica, V, 1013b, 5-10).
Causa, por sua vez, significa “a matéria de que são feitas as coisas”; “a forma e o modelo”; “o princípio primeiro da mudança ou do repouso”; “o propósito da coisa” (Metafísica, V, 25-35, 1013b, 5-10).
As quatro causas (aitiai) vinculam o conhecimento teorético com a prática e a produtiva. Na Física II, 3, são descritas as causa: Causa formal, material, final e eficiente. Aristóteles afirma que nós sabemos quando conseguimos explicar. Elas funcionam como meio termos de silogismos de explicação.[3]
Sensibilidade.A percepção sensorial tem o papel de iniciar o processo cognitivo na epistemologia de Aristóteles. Ela ocorre por um tipo de alteração (De Anima, 417a). A atividade da percepção se assemelha à ciência. As coisas que produzem a sensação são exteriores. A diferença é que a ciência se ocupa dos universais e a percepção dos particulares (417b, 20-15).

Sobre a sensibilidade em geral é preciso perceber que o sentido é aquilo que é capaz de receber as formas sensíveis sem a matéria, como, por exemplo, a cera recebe a impressão de um anel sem o ferro e o ouro. A cera, com efeito, recebe a impressão de ferro ou do ouro, mas não enquanto ouro ou ferro. Ora, é da mesma maneira que o sentido é afectado por cada objeto que possua cor, sabor ou som – não enquanto cada um dos objetos individualmente é dito, mas enquanto dotado de certa qualidade, e de acordo com a proporção.[4]

Os sentidos são capazes de receber as formas (eidos) sensíveis das coisas sem matéria. Eles são afetados pelas coisas. Não são as coisas em si que são apreendidas pela sensação, mas certas qualidades, certa impressão delas. Além disso, é necessária uma certa proporção para que haja afecção dos sentidos (424a, 20-39).
O excesso destrói a percepção. O som ou a luz em excesso anula a percepção. As plantas também são afetadas pelas coisas, porém, elas não possuem a faculdade de separar a matéria das formas sensíveis (242b).
Os sentidos atuam simultaneamente (4525b). O percepcionar se assemelha ao entendimento e ao pensamento. Mas o percepcionar é comum a homens e a animais, já o entendimento é exclusivo do homem (427b, 5-10). As atividades da imaginação dependem da percepção sensorial. Ela depende de nossa vontade. Porém, as opiniões se formam necessariamente falsas ou verdadeiras (427b, 10-25). A imaginação por meio dos objetos sensoriais. “A imaginação será um movimento gerado pela ação da percepção sensorial em atividade” (429a).
Entendimento. O intelecto (entendimento) é a faculdade com que a alma discorre e faz suposições (De Anima, 429a, 20). De outro modo, comparando, “o entendimento é a forma das formas e o sentido dos sensíveis” (432a).
O intelecto capta apenas a forma do objeto. A forma pode ser uma cor, uma figura, um tamanho. A imagem mental é oferecida ao intelecto para que ele atualize o conceito das coisas. O intelecto pode realizar suas atividades sem a intervenção do corpo. As funções psíquicas são a sensação, a memória, a imaginação, a intelecção e a intuição intelectual (noûs). Esta última não precisa da mediação da sensibilidade.
No De Anima, Aristóteles distingue Intelecto Ativo (Noûs poietikon) de Intelecto Passivo (Noûs pathetikon). O primeiro age sobre o segundo tornando-o capaz de conhecer as coisas. O intelecto ativo atualiza as formas inteligíveis contidas nas formas sensíveis contidas e conhece por intuição direta as ideias puras.[5]
Há três disposições na alma: O conhecimento técnico (techné), a ciência (epistéme) e a sabedoria prática (phrônesis), a sabedoria filosófica (sophia) e a inteligência (noûs). Por fim, Aristóteles divide o conhecimento em ciências teoréticas, práticas e poiéticas. As ciências teoréticas são aquelas que investigam os princípios e as causas dos seres e das coisas da natureza. As ciências práticas são aquelas cujo princípio ou causa é o homem como agente e seu comportamento como finalidade. E as ciências poiéticas são as que se referem à ação fabricadora do homem.[6]


4. O racionalismo e o empirismo no pensamento cristão
4.1. Agostinho de Hipona
 
Esquema de Agostinho.
Uma das influências que Agostinho recebeu da tradição filosófica foi o neoplatonismo, mediante as obras de Plotino (As Enéadas). A primeira forma de conhecimento que trata Agostinho é o autoconhecimento e é através da fé que o homem desenvolve sua faculdade de conhecer. A fé se torna condição para o conhecimento.
      Nesse sentido, pode se estabelecer um paralelo com Descartes. Agostinho afirma que podemos nos equivocar a cerca das coisas que nos rodeiam, mas não sobre a nossa interioridade. Se eu sou capaz de me enganar, eu existo. Nas palavras de Agostinho: “não te poderias enganar de modo algum, se não existisses”.[7] O fundamento da certeza está na consciência do indivíduo.
Por serem três as realidades: o ser, o viver e o entender. É verdade que a pedra existe e o animal vive. Contudo, ao que me parece a pedra não vive. Nem o animal entende. Entretanto, estou certíssimo de que o ser que entende possui também a existência e a vida. É porque não hesito em dizer: o ser que possui essas três realidades é melhor do que aquele que não possui senão uma ou duas delas.[8] ().
      A teoria do conhecimento de Agostinho se inicia com o anúncio de três realidades que sã também o ponto partido da verdade fundamental: a existência..
      Na obra “O Livre-Arbítrio”, Agostinho afirma que a superioridade do homem sobre os outros animais se dar por causa da razão. Ela constitui seu poder em superar a ferocidade dos animais. A razão é a verdade mais elevada no homem: “O que denominamos saber não vem a ser nada mais do que se perceber pela razão”.       
      Acima da razão está a verdade que julga e não é julgada. Esse movimento de busca no interior aproxima o homem cada vez mais de Deus. Portanto, Deus é o fundamento da verdade. Essas verdades que se encontram no espírito humano não provêm da experiência sensível.  Os sentidos são intérpretes da mente para conhecer as coisas exteriores. Ao gravar as imagens das experiências sensíveis na memória é que as comparamos e as juntamos, compreendendo a realidade. A memória funciona como “documentos das coisas anteriormente percebidas”, nas palavras de Agostinho.
      O domínio das ideias acontece com a iluminação divina. As ideias são os arquétipos de toda a existência da mente de Deus e a criação é a realização desses arquétipos.[9]
Teoria da Iluminação. Em contraposição ao ceticismo, Agostinho sustenta que através da dúvida o pensamento age e o homem se reconhece como ser pensante e não pode negar a própria existência e nem duvidar da verdade, pois de qualquer forma já se encontra em contato com a verdade.  O homem é apenas um buscador da verdade, sua mutabilidade e sua imperfeição o impede de conter a verdade em si. A verdade não pode plenamente revelada ao homem no tempo. Deus é quem transmite para a inteligência do homem. Na própria consciência, ele pode encontrar Deus.
      A teoria da iluminação é a afirmação de que o homem não possuindo por si mesmo a verdade, ele a recebe de Deus como uma luz que ilumina a mente e a permite aprender.
A Teoria da Iluminação Divina é apresentada por Santo Agostinho como ação direta de Deus na mente humana, de modo que o homem possa chegar ao verdadeiro conhecimento, sendo que é essa luz divina que possibilita ao homem encontrar Deus e alcançar a felicidade.[10]    
 Como Platão na Teoria da Reminiscência, algumas ideias fundamentais não derivam da realidade sensível. A fonte das ideias não é o mundo sensível, é para Agostinho o próprio Deus.[11]
     Linguagem e Verdade. No De Magistro estabelece-se uma relação entre conhecimento e linguagem. Esta se manifesta incapaz de expressar todo o saber.  O discurso não ensina. E à medida que vamos confrontando nossas opiniões com as opiniões alheias, e mudamos de opinião, estamos consultando nossa verdade interior.
      A linguagem por si mesma não é capaz de transmitir conhecimento. Mas é indispensável ao ensino. O conhecer supõe algo anterior à linguagem. As palavras são sinais exteriores do conhecimento, a verdade é garantida pelo mestre interior. As condições do conhecimento não são de ordem lingüística e sim metafísica. É o conhecimento que confere sentido à linguagem.
      Agostinho considera uma das funções da linguagem ensinar. E ensinar é rememorar e fixar melhor nossos argumentos. Porém, não é a linguagem que traz o conhecimento, é a verdade interior. A iluminação provém do mestre interior.[12]

4.2. Tomás de Aquino
 
Esquema de Tomás.
A ciência de acordo com Tomás de Aquino está no intelecto, porém, se este não conhece os corpos não tem ciência sobre a natureza.  As características desta ciência dependem das operações sensitivas são elas o conhecimento das causas do movimento e da matéria.
    O filósofo rebate a teoria das ideias de Platão porque esta considera que o conhecimento depende de espécies inatas introduzidas na alma. Se fosse assim o cego de nascença teria conhecimento das cores, situação que não ocorre.
    A operação cognitiva depende da união entre corpo e alma.  Com base em Agostinho, o filósofo proporá dois modos de conhecer. O primeiro é reservado aos bem-aventurados que vêem tudo em Deus. O segundo é próprio da vida presente e depende das razões eternas. Neste caso, o conhecimento dependerá das operações sensitivas e da iluminação intelectual que garante a participação nas razões eternas.
         A operação intelectual é causada pelos sentidos porque estes oferecem a matéria do conhecimento. O intelecto se serve dos phantasmata para inteligir. Estes phantasmata são causados pelos sentidos que apreendem as coisas particularmente. Todo o conhecimento depende das coisas sensíveis por causa da união entre corpo e alma. “Se os sentidos ficarem bloqueados, o intelecto não tem como voltar-se a seu objeto próprio de conhecimento, o que impossibilita a ocorrência de algum juízo perfeito de sua parte”.[13]

5. O racionalismo e o empirismo na modernidade

5.1. René Descartes
5.1.1. Introdução
 
Esquema de Descartes.
     No século XVI, como herança da contestação dos valores medievais surgiu um novo ceticismo. O principal expoente foi Michel de Montaigne. A suspensão do juízo tornou-se a nova atitude filosófica.  Isso representou o ultimo movimento do Renascimento. Porem, isso conduziu ao salto epistêmico que René Descartes dará inaugurando a Filosofia Moderna.[14]
     O filósofo reage ao ceticismo de seu tempo, considerando que a dúvida pode ser acolhida somente como método e não como fundamento da pesquisa. Em Descartes, encontramos uma Teoria do Conhecimento e uma Teoria do Método Científico. Abordaremos tais questões a partir do “Discurso do Método” e das “Meditações Metafísicas”.
     O “Discurso” é uma autobiografia intelectual. Nela há afirmação de que o conhecimento confiável é o do tipo matemático e da possibilidade de dedução de um princípio epistemológico seguro. Nas Meditações Metafísicas, o filósofo desenvolve conceitos importantes de seu sistema como as substâncias, a classificação das ideias e o papel dos sentidos e da razão.

5.1.2.  Conceituação de termos técnicos em Descartes

     Comecemos por elucidar alguns termos importantes da linguagem cartesiana no que diz respeito ao conhecimento:

ANÁLISE: É a divisão racional de um objeto de estudo em partes e cada parte deve ser evidente.
DEDUÇÃO: É a formulação de uma demonstração universal.
DÚVIDA METÓDICA: É o procedimento metodológico de colocar todo conhecimento sob suspeita até que verifique sua veracidade. Difere-se da dúvida cética.
EVIDÊNCIA: É uma ideia clara e distinta; que não necessidade de justificação visto que não há possibilidade de confundi-la com outra coisa.
INTUIÇÃO: É apreensão de uma ideia imediata, clarividente e indubitável.

5.1.3. O princípio da dúvida metódica

     Enquanto investigadores, nós podemos duvidar dos sentidos porque eles podem nos enganar; do mundo; e da razão que pode se evocar sobre operações matemáticas.
A ideia fundamental da qual não podemos duvidar é da nossa existência: Cogito ergo sum. É a primeira e basilar ideia que resiste à dúvida metódica. Esta é, portanto, uma ideia inata.
     Quanto à origem de nossas ideias, Descartes as classifica em três classes: a) Ideias inatas: são aquelas que fazem parte da própria razão, nasceram com o sujeito. B) Ideias adventícias: são aquelas que surgem da experiência. C) Ideias factícias: são resultadas da imaginação e da vontade.

5.1.4.  As três substâncias

A partir da certeza fundamental da existência do eu. Descartes identifica três substâncias:

SUBSTÂNCIA PENSANTE: A substância e o próprio pensamento.
SUBSTANCIA EXTENSA: E a realidade corpórea e o mundo.
SUBSTÂNCIA INFINITA: É a substância que leva os atributos de perfeição e de infinitude.

5.1.5. Crítica à pedagogia escolástica

     Descartes inicia o “Discurso do Método” com uma crítica da pedagogia escolástica, principalmente, da educação que recebeu no Colégio La Flèche.
a) O bom senso é algo bem distribuído entre os homens e o poder de julgar e de distinguir o verdadeiro do falso é comum a todas as pessoas.
b) Existe uma diversidade de opiniões e conduzimos nossos pensamentos por caminhos diferentes. Não basta ter um bom espírito é preciso usá-lo bem.
c) A razão é a habilidade que torna os homens diferentes dos animais. É a marca distintiva do ser humano.
d) É necessário um método. Com o método, temos os meios de aumentar gradativamente o conhecimento.
e) Em seus estudos Descartes admirava a exatidão e a evidência da matemática, mas não compreendia a sua utilidade. A teologia não achava indispensável, pois não é necessário para ir ao céu e, além disso, seu conteúdo está além da inteligência. A filosofia não trazia novidades. As ciências tornavam-se temerosas porque não havia fundamentos firmes para elas.

5.1.6.    A construção da certeza fundamental

     A primeira consideração sobre o método científico proposto por Descartes é: “Não há tanta perfeição nas obras compostas de várias pecas e feitas pelas mãos de diversos mestres”. O trabalho de um só funciona melhor por tender para o mesmo fim.
     O método tem como finalidade reformar os próprios pensamentos de Descartes. A busca do conhecimento exige a adoção de rumo e de analise minuciosa do objeto. Ele recorre à Lógica para estabelecer suas regras e reduz a grande quantidade de princípios da lógica tradicional a quatro: 1) Aceitar somente o que é evidente, claro e distinto; 2) Dividir e analisar cada parte do problema; 3) Raciocinar de modo ordenado e progressivo, partindo do simples para o complexo; 4) Enumerar e revisar o processo para apurar possíveis omissões.[15]
     As vantagens deste método é o fato de ele já ser utilizado pelos geômetras e permite utilizar a razão em cada parte do processo.
     Enquanto, Descartes faz sua reforma do pensamento, ele propõe uma moral provisória. Já que o problema moral não pode ficar suspenso. Em seguida, o filósofo conta que resolveu rejeitar tudo que tivesse a menor dúvida e fingir que tudo que lhe ocorria era falso. Ele chega às seguintes conclusões:
a)Mesmo que alguém pretenda que tudo seja falso, mas o fato de pensar é alguma coisa que não pode ser negadas. Portanto, a mais firme das afirmações é “eu penso, logo, sou”.
b) Mesmo que eu subtraia toda a existência das coisas ao meu redor, não posso duvidar de que eu existo. Sou uma substância cuja essência é pensar.
c) O conhecimento é maior do que a dúvida. Tudo aquilo que concebemos de modo claro e distinto é verdadeiro.
d) Como o imperfeito não poderia pensar a imperfeição, portanto, tal ideia poderia ser colocada por Deus na mente humana.
e) A afirmação de que um conhecimento para ser verdadeiro precisa passar primeiro pelos sentidos impede a concepção de Deus e da alma: “Os nossos sentidos poderiam jamais assegurar-nos de qualquer coisa, se nosso entendimento não interviesse”.[16]
f) A garantia da verdade se dá pela certeza das ideias claras e distintas. O conhecimento de Deus e da alma dão a certeza dessas regras. Devemos, portanto, nos guiar unicamente pelos caminhos da razão, não dos sentidos.

5.1.7.    O conhecimento nas “Meditações Metafísicas”

     A Primeira Meditação trata da necessidade da dúvida metódica, do engano dos sentidos; da extensão da dúvida às proposições matemáticas e da hipótese do gênio maligno. A segunda diz respeito à certeza do cogito, à realidade do pensamento e clareza e distinção oferecida pelo espírito. A Terceira fala do critério da clareza e da distinção, da classificação das ideias e da realidade forma e objetiva, do princípio de causalidade, provas da existência de Deus e sua natureza inata.
     Na Terceira Meditação, define que coisa pensante é sentido amplo o que duvida, afirma, nega, entende, odeia, imagina e sente. Tanto a imaginação quanto a sensação estão no eu. Os pensamentos são imagens das coisas. Mas são também vontades, afetos e juízos. As ideias e a vontade em si mesmas não podem ser propriamente falsas, isso ocorre nos juízos que fazemos delas.
     As ideias são imagens no eu tiradas das coisas externas e que podem ser deficitárias em relação às essas coisas, não podem ser mais perfeitas. Ideias como a alma, Deus são inatas. Já o ruído, o fogo, o sol, são adventícias. Estas não dependem da nossa vontade, decorrem das sensações e há discrepâncias entre o objeto e a ideia (Ex.: perceber o sol pequeno). Mas as sereias e as entidades míticas são inventadas (factícias).[17]
     Na Sexta Meditação, Descartes afirma o papel da razão ao relatar que sua confiança nos sentidos foi abalada por algumas experiências como as ilusões da visão. Por isso, ele considerou que utilizar as coisas do sentido para o conhecimento é errôneo.

5.2. John Locke
5.2.1. As características do empirismo
 
Esquema de Locke.
     Os empiristas ingleses entram na discussão sobre a origem do conhecimento para opor o inatismo cartesiano. Eles continuam a tradição empirista do século XIII e precedem o iluminismo. As principais proposições do empirismo são:

a) Tábula rasa: Não existem ideias inatas e conteúdos mentais independentes da experiência.
b) Sensibilidade: A experiência é critério de sentido e de verdade do conhecimento.
c)Princípio de associação: Através de dados simples sensíveis combinados chega-se ao conhecimento complexo.
d) Universais: Não existem e não são objetivos, cada coisa tem existência individual e são apenas nomes.
e) A teologia e a metafísica não têm valor.
f) Limites do saber: É ciente dos limites do saber, não é possível uma verdade absoluta e definitiva.
g) Ética: Tende a individualizar o bem e associá-lo à utilidade social.

5.2.2. Crítica de John Locke ao inatismo

     O conhecimento ocorre sem quaisquer impressões inatas. Como Descartes afirmava, de fato, existem princípios que são de consenso universal, mas isso não serve como prova do inatismo. Locke considera pouco inteligível a afirmação de que existe algo impresso na alma. Se assim fosse, as crianças e as pessoas com certas deficiências mentais teriam essas ideias e as usariam. Seria insensato considerar que a maturidade faria revelar conhecimentos que a criança já sabia.
     Segundo Locke, “os sentidos inicialmente tratam das ideias particulares, preenchendo o gabinete ainda vazio, e a mente se familiariza gradativamente com algumas delas, depositando-as na memória”. Mais tarde vai acontecendo a abstração. Algumas distinções a criança sabe antes do uso da razão. O assentimento imediato a uma proposição não é prova de inatismo.[18] As crianças não têm ideias inatas. Elas têm apenas vagas ideias de necessidades instintivas.

5.2.3.  A teoria do conhecimento de John Locke

     John Locke (1632-1704) publicou o “Ensaio sobre o Entendimento Humano em 1689. E inicia uma crítica ao inatismo. Os inatistas colocam todo o conhecimento do mundo natural ou sobrenatural sob axiomas especulativos, ou seja, teóricos que não dependem de provas.[19]
     Segundo Locke a razão é limitada porque é a experiência que fornece material para o conhecimento. Da experiência derivam ideias simples e ideias complexas. As ideias simples são formadas pela impressão dos sentidos. Essas ideias são todo o material do conhecimento e provêm da sensação e da reflexão.  As duas fontes principais do conhecimento são as sensações e as operações da mente.
     A mente pode repetir, comparar e unir as ideias formando novas ideias. Ela não é capaz de inventar uma ideia simples nova.[20] As ideias de sensação são aquelas derivadas da ação dos sentidos. Quando estas são trabalhadas pela mente se tornam ideias de reflexão.  São exemplos de ideias de sensação a cor, a temperatura, o sabor. São as qualidades primárias de um corpo. As ideias de reflexão são a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer e o querer. São ideias “que se dão ao luxo de seres tais apenas quando a mente reflete acerca de suas próprias operações”.[21]
     Locke entende por ideia “todo e qualquer objeto do entendimento, ou seja, tudo aquilo a que a mente se aplica a pensar”. As ideias simples a partir da reflexão se tornam ideias complexas e são de três tipos: Modo, relação e substância. Modo são as ideias conceituais; relação são as ideias de causa e efeito, de identidade e de diferença; e substância.
     Pela intuição, as ideias simples são recebidas pela experiência. Essas ideias se tornam complexas pelo processo da síntese. As ideias abstratas se formam através da análise de várias ideias semelhantes, tomando os elementos comuns, forma-se uma nova ideia. A ideia abstrata se diferencia da essência, pois esta é incognoscível.

Referências
DESCARTES, René. Discurso do Método.
_____________. Meditações Metafísicas.
HUME, David. Tratado I, III, 10.
LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. Capítulo II, pp. 57-140.
MONDIN, Batista. Curso de Filosofia 2. São Paulo: Paulus, 1981.
RICKLESS, John Locke.
SANTIN, José Guilherme. Origens do Ceticismo Francês do Século XVI: Humanismo, averroísmo, nominalismo e fideísmo. Kinesis, Vol. VI, n.11, julho 2014.

5.3. O transcendentalismo kantiano
Esquema de Kant.

Immanuel Kant admite que o conhecimento começa pela experiência, porém, existem algumas condições a priori para que as impressões sensíveis se tornem conhecimento. Ele se posiciona acolhe as teses do empirismo e do racionalismo. A dicotomia entre as duas teses é problemática. O filósofo argumenta que “pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas”.[22]
Kant denomina de transcendental as condições a priori do conhecimento. Elas não se ocupam do conhecimento dos objetos em si, mas do modo como estes objetos são conhecidos. Os objetos dos sentidos são regulados pela faculdade da intuição. A razão impõe alguns conceitos a priori aos objetos.[23]
As observações da natureza sem um plano estabelecido previamente pela razão não formulariam juízos necessários. Os princípios racionais acompanham a experiência para que se possa produzir conhecimento. Kant antecipava o que seria predominante nas ciências naturais, nas quais o experimento é antecedido por teorizações.[24]
Kant distingue os diferentes tipos de conhecimentos em relação à sua fonte. Ele chama de juízos sintéticos a priori são aqueles conteúdos cognitivos que independem de qualquer experiência. Os conhecimentos a posteriori dependem da experiência ou resultam dela. Os juízos analíticos são elucidativos, independem da experiência e são verdadeiros por causa do significado dos seus termos. Por exemplo, “Todos os corpos são pesados”. Esses juízos não ampliam o conhecimento só informam aquilo que já está contido nos termos que compõem a proposição.[25]
Já os juízos sintéticos são ampliativos e permitem a expansão do conhecimento. Eles constituem o objetivo da procura pelo saber. Os juízos analíticos servem para esclarecer a linguagem que será empregada na notação do conhecimento. Há dentre os juízos sintéticos que se aceitavam, antes de Kant, somente como a posteriori, aqueles que são a priori. Isso que dizer que Kant identifica um tipo de juízo que amplia o conhecimento, mas são necessários e universais como os analíticos. São exemplos o conhecimento da matemática, da geometria e da física.[26]
Para elaborar sua epistemologia, Kant dependeu de uma teoria sobre a realidade. Ele classificou as coisas no mundo em fenômeno e númeno. Esta distinção diz mais respeito sobre como é possível conhecer o mundo. As coisas em si (númeno) jamais podem ser conhecidas, apenas podemos conhecer a forma como elas nos aparecem (fenômeno). Apesar da impossibilidade de conhecer o número, o conhecimento objetivo ainda é possível.[27]
No processo cognitivo, temos acesso às sensações dos objetos que são ordenadas pelas formas do espaço e do tempo. Temos como resultado as percepções. O entendimento aplica suas formas a priori e nos permite conhecer as coisas. Assim não há conhecido dos objetos sem sensibilidade e nada pode ser pensado sem entendimento.[28]
A sensação opera cognitivamente pelas formas da sensibilidade que são o espaço e o tempo. Os objetos que estão fora de nós são representados pela noção de espaço. Ele é uma representação a priori necessária que está na base das intuições externas. O tempo é uma forma da sensibilidade interna. Através dela ordenamos as sensações considerando algumas coisas como simultâneas e outras como sucessivas. O espaço e o tempo são formas a priori.[29]
O entendimento opera com suas formas categorizando os dados fornecidos pelos sentidos.  As categorias kantianas são reunidas em quatro grupos da quantidade, daqualidade,  da  relação  e  da  modalidade. O entendimento tem a capacidade de ordenar e de julgar os dados da experiência.[30]

Referências
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Os pensadores.  Vol. I. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SILVEIRA, Fernando Lang da. A Teoria do Conhecimento de Kant: o idealismo transcendental. Cad. Cat. Ens. Fís., v. 19, número especial, p. 28-51, 2002.





[1] Noam Chomsky aplica a tese inatista à aquisição da linguagem. Segundo Chomsky, os seres humanos já nascem com uma espécie aparato responsável pelo desenvolvimento da linguagem.  Ele possui uma estrutura gramatical universal que permite às crianças formularem frases que jamais ouviram dos pais. Portanto, a linguagem é um tipo de conhecimento inato.
[2]CHAUÍ, Marilena. Introdução à Filosofia I. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, P. 413-420.
[3]PATTERSON, Richard. Aristotle. In: BERNECKER, Sven; PRITCHARD, Duncan. The Routledge Companion to Epistemology.New York: Routledge, 2011, p. 669.
[4]ARISTÓTELES. De Anima. 424ª.
[5]CHAUÍ, 2002, p. 427-432.
[6]CHAUÍ, 2002, p. 349-351.
[7] AGOSTINHO. O livre arbítrio, II, 3, 7. p. 80.
[8] AGOSTINHO. De lib. arb. II, 3.
[9] RODRÍGUEZ, 2015.
[10] SOUSA, 2009.
[11] SKUOLA, 2015
[12] ALVES, 2012.
[13] ST Iª, 84, 8, Respondeo.
[14] SANTIN, Jose Guilherme. Origens do Ceticismo Francês do Século XVI: Humanismo, averroísmo, nominalismo e fideísmo. Kinesis, Vol. VI, n 11, julho 2014, p. 281-282.
[15] DESCARTES, René. Discurso do Método, p. 31.
[16] DESCARTES, René. Discurso do Método, p. 45.
[17] DESCARTES, René. Meditações Metafísicas, 19.
[18] LOCKE, pp. 146-149.
[19] RICKLESS, John Locke, p. 33.
[20] LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. Capítulo II, pp. 57-140.
[21] LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano, pp. 159-160.
[22] KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Os pensadores.  Vol. I. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 75.
[23]SILVEIRA, Fernando Lang da. A Teoria do Conhecimento de Kant: o idealismo transcendental. Cad. Cat. Ens. Fís., v. 19, número especial: 2002, p. 28-51.
[24]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[25]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[26]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[27]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[28]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[29]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
[30]SILVEIRA, 2002, p. 28-51.
 

Bibliografia

ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. Rev. atual. São Paulo: Moderna, 2003.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 12ª ed. São Paulo: Paulus, 2001