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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Epistemologia Social


UMA EPISTEMOLOGIA DAS CRENÇAS COLETIVAS: VERDADE E APARÊNCIA NAS POSTAGENS EM REDES SOCIAIS

José Aristides da Silva Gamito[1]

1. A situação das postagens com conteúdos políticos

Os julgamentos das ações humanas são empreitadas que comportam riscos. Principalmente, quando se trata de questões coletivas. As redes sociais trouxeram à tona uma discussão de suma importância. Ela diz respeito sobre como podemos julgar uma situação estando distante das ocorrências. Considerando este debate ao extremo, podemos perguntar se as redes sociais são mídias confiáveis para serem tomadas como “fontes” de notícias. Ou se podemos formar juízos confiáveis a partir delas. Dentre muitos aspectos que podem ser abordados sobre esta questão, quero levantar uma breve discussão sobre os juízos políticos.
As postagens em redes sociais, intimamente chamadas de posts, são gêneros textuais concisos, às vezes, aparecem na forma indireta de compartilhamentos de informações de terceiros. Como são breves, dependem de uma mensagem bem clara e objetiva visto que ninguém consegue dizer tudo com um número reduzido de palavras. Muitas vezes, as pessoas não usam suas palavras, mas adotam frases de terceiros, ou utilizam links de textos de terceiros também para transmitir algum posicionamento.
Até neste ponto, não há problemas porque a natureza funcional das redes sociais é esta. Trata-se de uma comunicação rápida, concisa.  Porém, a questão torna-se muito complexa quando os usuários da internet começam a formar juízos a partir de uma ou de uma sequência de postagens. As recentes e famigeradas fakenews ganham força quando as pessoas, dentro deste emaranhado de informações, tomam as informações que chegam até elas como verdade. Mas estas informações foram replicadas muitas vezes, acriticamente, até chegar a determinado receptor que faz delas uma verdade. Nestas situações, pouco se pergunta sobre as condições que geraram a informação. Quem é o fiador daquela verdade? Elas foram geradas com quais intenções? Como foi obtida a informação?
Outro ponto que quero levantar é sobre a reação dos internautas sobre o perigo das fakenews. Estou vislumbrando estas reações no campo político. As pessoas passaram a utilizar a classificação de fakenews para esvaziar o discurso do oponente. Muitos já consideram, de antemão, que tudo que os simpatizantes do partido ou do político X postar no facebook ou no twitter é falso. Mas, pelo contrário, tudo que eles postam sobre o partido Y é verdadeiro. Em todas as etapas da veiculação de notícias nas redes sociais, faz-se necessária uma capacidade crítica que vença até mesmo as armadilhas das paixões partidárias. Se alguém passa a considerar que tudo que o outro disser é inválido, portanto, não há comunicação. Isso invalida a função de uma rede social, por exemplo.
Os juízos políticos veiculados em redes sociais são emitidos dentro de uma situação comunicativa conflituosa. Dentro da atual polarização política brasileira, os internautas adotaram uma “leitura da suspeita”.  A suspeita metódica é uma ferramenta válida para analisar conteúdos ideológicos, porém, quando a suspeita já se converte em juízo, há um embaraço para o conhecimento. As generalizações a partir de títulos de matérias sem a leitura completa das notícias é uma prática muito comum. Quando a suspeita sobre a comunicação do outro não envolve a suspeita sobre mim mesmo,  este procedimento é extremamente desfavorável. Portanto, a suspeita metódica é válida, mas a suspeita que se converte em conclusão, em sentença, é um obstáculo.

2. Os limites dos juízos sobre ações coletivas

Para ilustrar a dificuldade dos julgamentos de situações à distância e que envolvem juízos sobre ações de terceiros, vamos a um causo.

A vizinhança do bairro Mirandão viveu uma situação inusitada na manhã de um domingo. Joaquim entrou correndo para a sua garagem. Os vizinhos da direita, que ouviram ele discutir na véspera com sua esposa, concluíram: “Joaquim vai matar a sua mulher”. O vizinho da esquerda que estava vindo do bar, e o viu conversando com um rapaz, comentou com a mulher: “Joaquim bateu na cara de um moço na esquina e foi buscar uma arma”. Porém, depois de alguns minutos, Joaquim chega na cozinha todo suado e diz para a sua esposa: “Teresa, eu encontrei meu amigo de infância, o Zezinho na esquina, dei um abraço apertado nele, sacudi-o, falando, ‘cara, por que você some? Quanto tempo?’. Mas não tive o prazer de terminar a conversa, tive de vir correndo procurar um banheiro. Bateu uma dor de barriga forte!”.

Neste caso, dois grupos de pessoas interpretaram a ação de Joaquim a partir das informações que tinham. Quando julgamos determinadas ações a partir de suspeitas apressadas tendemos a tomar qualquer indício favorável à nossa tese como conclusivo. É, justamente, este tipo de interferência emotiva no juízo que leva os internautas a generalizar, formar preconceitos e rotular seus opositores políticos. A formação do juízo não depende exclusivamente da razão, as emoções participam conjuntamente. Mas, quando não se tem um critério claro no julgamento, as pessoas acabam odiando as outras porque estão convictas de que elas estão erradas e são “comparsas do mal”.  Mas cada um só tem conhecimento de uma parte do todo. Isso pode ir longe! Ainda mais quando se coloca uma boa dose de teoria conspiratória.
Estas situações que ocorrem na informalidade, podem do mesmo modo afetar as decisões maiores como o funcionamento das instituições. Na situação específica do embate ideológico bolsonarista-lulista, podemos verificar nas redes sociais como as análises de “suspeitas” obnubilam a razão e os critérios objetivos das pessoas. Elas acabam por perder boas oportunidades de contribuir para a melhoria da política porque trabalham em mão única: só veem os acertos de seu lado e os erros do outro lado.  Sempre quando eu disser isso, pense no vice-versa. Parece ser vergonhoso fazer a autocrítica, é como dar pontos para o inimigo. No fundo esta radicalização comunicativa, torna a comunicação bloqueada, o conhecimento parcial e a verdade inatingível.

3. Considerações finais

            As redes sociais tornaram-se um campo fértil para a pesquisa sobre as crenças coletivas. Principalmente, de como elas afirmadas e sua relação com a verdade. Enquanto, muitos estão perdidos no partidarismo e não podem dar conta dessas características porque precisam derrotar o opositor, estas oportunidades são boas para o pesquisador da epistemologia entender como funcionam estas crenças coletivas dentro do espaço das redes sociais. Fica por aqui apenas uma provocação inicial.


[1] Mestre em Ciências das Religiões (linha de pesquisa: Análise do Discurso), filósofo e professor de Teoria do Conhecimento.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Aconteceu o I Seminário de Epistemologia da Religião no SDNSR

No dia 21 de junho de 2019, realizamos em Caratinga com a turma do 3º ano de filosofia do Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário o I Seminário de Epistemologia da Religião. O tema proposto foi: “A racionalidade das crenças religiosas: Uma proposta para debate”.  Participaram das apresentações os alunos do curso de filosofia.
Das 19 às 22 horas, foram desenvolvidas as seguintes comunicações: O seminarista Bruno Kened Ferreira apresentou o tema “Percepções do Itinerário Racional-religioso em Santo Agostinho”. Em seguida, o seminarista Elyvelton Rodrigues Francisco apresentou “Uma abordagem epistemológica da obra “Deus e o Homem” de Pe. Júlio Maria De Lombaerde”. Por último, o professor José Aristides da Silva Gamito apresentou a comunicação “A Racionalidade das Crenças Religiosas: Em busca de um Modelo a partir das Ciências Cognitivas da Religião”.

Fotos: Luccas Venâncio.



Comunicação de Bruno Kened Ferreira.

Comunicação de Elyvelton Rodrigues Francisco.

Comunicação de José Aristides da Silva Gamito.






segunda-feira, 20 de maio de 2019

Epistemologia da Religião II


AS CRENÇAS RELIGIOSAS SÃO BÁSICAS OU DESENVOLVIDAS COMO SUB-PRODUTOS? UMA CRÍTICA AO SENSUS DIVINITATIS DE ALVIN PLANTINGA

José Aristides da Silva Gamito

1.    A crítica de Alston e Van Eyghen à tese do sensus divinitatis

Como resposta à questão de como se formam as crenças religiosas, Alvin Plantinga propõe o conceito de sensus divinitatis. A discussão a respeito do conhecimento religioso pretende verificar a racionalidade das crenças religiosas. Plantinga propõe a tese do sensus divinitatis para salvaguardar a racionalidade da fé.
O sensus divinitatis é “um senso inato e natural de Deus ou de divinidade, que é a origem e a fonte das religiões no mundo”. Isso quer dizer que naturalmente, independente de uma revelação sobrenatural, as pessoas tendem a formar crenças religiosas. A mente humana teria um mecanismo de intuição da existência de Deus.[1] As fontes primárias de Plantinga são Tomás de Aquino e João Calvino.
Este sensus divinitatis depende de algumas circunstâncias para ser despertado. A beleza e a engenhosidade da natureza podem despertar este senso de uma divindade. Em Plantinga, ecoa o argumento cosmológico de Tomás de Aquino, segundo o qual a ordem e a perfeição da natureza remetem a mente humana à existência do divino.[2]
Segundo Van Eyghen, Plantinga tem sempre uma condição “se Deus existe”, então, ele criou a humanidade para reconhecê-lo. A crítica de Van Eyghen é que o conceito de Plantinga cabe exclusivamente na concepção teísta. Além do mais, ele está bem no cristianismo especificamente. Trata-se de uma epistemologia da religião cristianocêntrica. Isto é notável quando ele considera que a leitura das Escrituras e a escuta do testemunho de alguém são eventos que despertam o sensus divinitatis.[3]
William Alston defende que Deus não depende de um mecanismo cognitivo para ser conhecido. Segundo este, as crenças religiosas são formadas por prática doxástica confiável (reliable doxastic practice). A fonte do conhecimento religioso é a percepção provocada pela experiência. A percepção mística dependeria de uma experiência para se ter consciência do divino.[4]
Portanto, a percepção das coisas não depende da formulação de um conceito. Não seria necessário um mecanismo especial para a produção de crenças religiosas e nem circunstâncias específicas como a leitura de um livro sagrado ou o testemunho de um crente. A diferença principal entre Alvin Plantinga e William Alston é que o primeiro vê o problema religioso através de uma perspectiva interna, já o segundo foca no exterior.
Plantinga incluiu, explicitamente, um sentimento de presença divina entre as crenças que podem ser produzidas pelo sensus divinitatis.Plantinga considera que há circunstâncias favoráveis à formação de crenças teístas, mas nem todos se deparam com estas circunstâncias.
Para Alston, as percepções de Deus trazem uma ligação de causa entre a crença e o que é percebido. Porém, para Van Eyghen, as percepções imediatas de Deus são impossíveis. A percepção divina defendida por Alston é indireta e mediada pela natureza. Como nem todas as pessoas têm essas experiências, as crenças religiosas podem ser formadas também ouvindo o testemunho de quem já teve. Assim como percebemos os estados mentais das outras pessoas a partir de suas ações, a percepção de Deus pode ser entendida de modo semelhante.[5]

2.    A contribuição das ciências cognitivas da religião

Na direção contrária ao sensus divinitatis de Alvin Plantinga estão também as ciências cognitivas da religião (CCR). Segundo este campo de estudo, não há um mecanismo cerebral específico para a formação de crenças religiosas. O que ocorre é a superativação de mecanismos ordinários.
Segundo Justin Barrett, as pessoas adquirem crenças em deuses e espíritos através da detecção de agentes com hiperatividade. É a detecção de agentes onde ninguém os vê. A hiperatividade pode ter sido desenvolvida como uma forma segura de nossos ancestrais se defenderem de predadores muito pequenos. A ideia do invisível se formou quando alguém ouvia um barulho, percebia movimentos sem identificar o agente. Vários autores defendem uma explicação semelhante: a) o sentimento da presença de agentes (BARRET); b) conexão social com os estados mentais dos outros (BERING); c) entrada de um senso moral (GRAY); d) um sentimento de base emotiva (GRANQUIST e KIRKPATRICK).[6]
De acordo com Pascal Boyer, as crenças religiosas surgem a partir de conceitos contraintuitivos. Os conceitos contraintuitivos são aqueles eventos que quebram a expectativa do comportamento normal do mundo. Uma parte considerável das crenças religiosas se baseia em violações de expectativas naturais como homens alados, virgem mãe, mortos que ressuscitam, agentes que atravessam paredes. Porém, como observaVan Eyghen, nem todas as quebras de expectativas resultam em crenças religiosas. Por isso, Boyer considera que “conceitos religiosos são uma forma especial de conceitos minimamente contraintuitivos.” [7]
De acordo com Stewart Guthrie, o traço universal da religião é o antropomorfismo. O homem ao observar a natureza deu-lhe feições e comportamentos humanos. Ele tende a ver rostos humanos nas nuvens e de atribuir uma causa para desastres naturais como se fosse a ação de um agente inteligente. Este comportamento fez o animismo se desenvolver na direção das religiões.[8]
As ciências cognitivas da religião consideram as crenças religiosas não como crenças básicas e inatas, mas um sub-produto de mecanismos cognitivos ordinários. A arquitetura mental é uma condição necessária para ocorrer crenças religiosas, porém, não é suficiente.
Na linha dos cognitivistas, acrescentamos Jesse Bering e Robert Mccauley. Eles acreditam que as crenças religiosas são formadas de modo similar ao modo como formamos crenças sobre as mentes dos outros. Os agentes sobrenaturais podem ser sub-produtos  do conhecimento social ordinário.[9]
Em direção semelhante, Will Gervais e Ara Norenzayan encaram a religião como um facilitador de interação em grupo. Portanto, a origem das crenças religiosas está vinculada à socialização. A transmissão das crenças dependeria de predisposições cognitivas em interação como as predisposições culturais.[10]

3.    Considerações finais

     De um modo geral, a tese do sensus divinitatis tem uma ampla relação de críticos. Ela se acomoda bem para um religioso teísta, porém, quando se observa  o fenômeno religioso de modo amplo esbarra-se em muitos obstáculos. As contribuições das ciências cognitivistas e da linha evolucionista ajudam a identificar fatores naturais para a formação de crenças religiosas sem apelar para um mecanismo específico na mente humana que assegure a racionalidade do conhecimento religioso.

Referências

BORTOLONI, Tiago; YAMAMOTO, Maria Emília. Surgimento e manutenção do comportamento religioso. Estudos de Psicologia, v. 18, n. 2, p. 223-229, 2013.

VAN EYGHEN, Hans. There is no Sensus Divinitatis. Journal for the Study of Religions and Ideologies, vol. 15, issue 45, 24-40, 2016.

WESTH, Peter. Anthropocentrism in Gods concepts: The role of narrative. In: GEERTZ, Armind W. (Ed.), Origins of  Religion, Cognition and Culture, n. 2, p. 1-22, 2005.


[1] VAN EYGHEN, Hans. There is no Sensus Divinitatis. Journal for the Study of Religions and Ideologies, vol. 15, issue 45, 2016, p. 24-40.
[2] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[3] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[4] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[5] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[6] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[7] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[8] WESTH, Peter. Anthropocentrism in Gods concepts: The role of narrative. In: GEERTZ, Armind W. (Ed.), Origins of  Religion, Cognition and Culture, n. 2, 2005, p. 1-22.
[9] VAN EYGHEN, 2016, p. 24-40.
[10] BORTOLONI, Tiago; YAMAMOTO, Maria Emília. Surgimento e manutenção do comportamento religioso. Estudos de Psicologia, v. 18, n. 2, p. 223-229, 2013.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Epistemologia da Religião


AS CRENÇAS RELIGIOSAS E O CONHECIMENTO RELIGIOSO

José Aristides da Silva Gamito
1.    Introdução


Há uma linha de debate na epistemologia que foca nas crenças e no conhecimento religioso. Introduziremos dois nomes nesta breve incursão no problema: Alvin Plantinga (posição calvinista) e Linda Zagzebski (posição católica).
            O debate é recente. Ele começa na década de 80, depois de um período de desconfiança das crenças religiosas por influência do iluminismo.
Em 1983, Alvin Plantinga e Nicholas Wolterstorff publicaram o livro Faith and Rationality, iniciando assim a fase da Epistemologia Reformada. Este movimento parte do pressuposto de que a crença em Deus não necessita de outras crenças e nem de evidências para ser racional. Zagzebski opera como crítica da Epistemologia Reformada.

2.    As influências da tese do sensus divinitatis de Alvin Plantinga
2.1.   Sensus divinitatis em Tomás de Aquino

No livro IV da Suma contra os Gentios, Tomás de Aquino trata do conhecimento natural de Deus:

O intelecto humano, que das coisas sensíveis recebe o conhecimento que lhe é conatural, para intuir em si mesmo a essência divina, que transcende infinitamente todas as coisas sensíveis, e até todos os entes, por si mesmo não é capaz de atingir a essência divina.[1]

Ao defender o conhecimento natural de Deus, Tomás argumento que existe uma ordem de perfeição na natureza cujo topo é Deus, na expressão de Tomás, o “sumo vértice das coisas”. Portanto, o homem partindo das coisas inferiores ascende até o divino. O conhecimento natural de Deus se dá por intuição intelectiva.
Tomás apresente um tríplice grau de conhecimento de Deus. Primeiramente, o homem conhece pela razão natural, depois, conhece pela revelação divina as coisas que excedem a capacidade do intelecto, e por último, após a morte, conhece por intuição pura.

Há, pois, três conhecimentos do homem referentes às coisas divinas: o primeiro, enquanto o homem mediante a luz natural da razão e pelas criaturas sobe até o conhecimento de Deus; o segundo enquanto a verdade divina que excede o intelecto humano, desce até nós pela revelação, não para ser vista como demonstração, mas para ser crida como pronunciada por palavras; terceiro, enquanto a mente humana é elevada à perfeita intuição das coisas reveladas.[2]

2.2. Sensus divinitatis em João Calvino

No capítulo III da obra “Institutas da Religião Cristã”, Calvino formula a noção de sensus divinitatis:

Que existe na mente humana, e na verdade por disposição natural, certo senso da divindade, consideramos como além de qualquer dúvida. Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em  quando  instila  novas  gotas,  de  sorte  que,  como  todos  à  uma  reconhecem  que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.[3]

Segundo Calvino, existe uma disposição natural na mente humana de um senso de divindade.  Esta lembrança vai sendo reavivada constantemente. A prova apresentada desta tese é a de que mesmo povos mais simples podem ter uma noção de religiosidade. Esta onipresença da religião em todas as culturas serve de argumento para o autor protestante sustentar a disposição natural para o conhecimento religioso. O recurso à adoração de ídolos é uma forma encontrada por vários povos para satisfazer sua necessidade de uma divindade.
Àqueles que afirmaram na época de Calvino que a religião era invenção humana, o autor respondia que mesmo que os povos tenham inventado muitas formas de religião, mas todas as elas foram motivadas pelo sensus divinitatis. Calvino não deixa lugar para a possibilidade do ateísmo:

Isto, sem dúvida, será sempre evidente aos que julgam com acerto, ou, seja, que está gravado na mente humana um senso da divindade que jamais se pode apagar. Mais: esta convicção de que há algum Deus não só é a todos ingênita por natureza, mas ainda que lhes está encravada no íntimo, como que na própria medula, que a contumácia  dos  ímpios  é  testemunha  qualificada,  a  saber,  lutando  furiosamente,contudo não conseguem desvencilhar-se do medo de Deus.[4]

João Calvino recebe influência da explicação de Tomás e desenvolve sua tese. Esta dupla influência recairá sobre o epistemólogo contemporâneo Alvin Plantinga que formulou o Modelo Aquino-Calvino, base da Epistemologia Reformada que surgiu nos anos 80.

3.    Posição de Alvin Plantinga

Segundo Plantinga, as crenças religiosas são propriamente básicas mesmo que não sejam inferidas de outras crenças que lhes servem como evidências.
            Ele segue a posição de Calvino que sustentava que existe um senso de divindade na mente humana que nos torna imediatamente consciente de Deus. Seu modelo é chamado de Aquino-Calvino, pela recepção dessas posições.
No modelo de Calvino e Plantinga, as crenças religiosas são mais como crenças perceptivas baseadas na experiência sensorial do que como teoremas geométricos inferidos de axiomas mais básicos.
            O conhecimento sobre Deus seria em função do sensus divinitatis. Este sensus seria uma faculdade cognitiva que garante a consciência religiosa mesmo sem os argumentos.
“Plantinga define o sensus divinitatis como uma faculdade cognitiva humana, natural, inata, voltada para a produção de crenças sobre Deus.”
            O indivíduo não tem controle e nem consciência da atividade esta faculdade. Ela atua sob certas condições de produção de crenças religiosas.
            As condições apresentadas por Plantinga são:
a)      Contemplação dos espetáculos da natureza;
b)      A sensação de culpa moral;
c)      A necessidade de proteção.
O modelo de Plantinga pressupõe que as circunstâncias funcionam como entradas na mente que se convertem em saídas como crenças religiosas.
            Hans Van Eyghen e os naturalistas não admitem a existência de uma faculdade específica para a produção de crenças religiosas porque não pode ser demonstrado fisiologicamente (VAN EYGHEN, 2016).

4.    Posição de Linda Zagzebski

Zagzebski parte sua epistemologia religiosa da tradição católica. As crenças exercem um papel central na religião. São essas crenças também que nos permitem diferenciar uma religião da outra. De modo geral, elas buscam responder aos problemas fundamentais da humanidade. Religião é um tipo de prática no qual as crenças vêm primeiro, depois segue a prática, incluindo as emoções, atos e ritos que derivam sua justificação da justificação independente das crenças religiosas.
William Alston considera que a experiência religiosa pode justificar as crenças religiosas para aquelas pessoas que possuem aquelas experiências ao modo de justificação a partir da experiência sensorial. É uma postura que atrai os empiristas. Porém, a religião é uma prática coletiva e o conhecimento vinculado em determinada religião é adquirida na comunidade religiosa a partir de um ensinamento autorizado.
Não se pode afirmar de todo que o conhecimento religioso parte unicamente de uma experiência pessoal. O ponto de partida é a confiança. A confiança em nós mesmos nos conduza a confiar no que outros também nos dizem. A autoconfiança ampara a confiança na autoridade e na sabedoria de alguns indivíduos. Existe um desejo natural de verdade e há uma crença natural que o desejo natural pela verdade pode ser satisfeito.
Como não confiamos em tudo que nós pensamos, buscamos avaliar outras pessoas que parecem mais confiáveis. A emoção da admiração é uma das emoções que nos leva a confiar nas crenças alheias. A admiração nos leva a aderir às crenças alheias. A sabedoria, porém, está mais depositada na comunidade do que nos indivíduos.  A confiança em pessoas sábias e na sabedoria da comunidade é a base da autoridade epistêmica. A confiança na autoridade nos leva ao conhecimento.
O testemunho da autoridade é um meio de conhecimento. O conhecimento religioso é um tipo que pode ser adquirido através da imitação daqueles cuja sabedoria nós admiramos. A imitação de hábitos religiosos de pessoas sábias pode ser passada de geração em geração e constituir uma verdade importante para as pessoas.
A crença religiosa pode ter uma base racional. Racionalidade, conforme Zagzebski, é a capacidade de falar para as outras pessoas e fazer-se entender não importa quais sejam estas pessoas. A posição de Platinga não é suficiente porque se sustenta exclusivamente na intuição do indivíduo. Zabgzebski considera que o conhecimento religioso depende em grande parte da confiança em autoridades e protótipos (exemplars) de sabedoria, mas é um conhecimento como os demais.


Referências

AQUINO, Tomás. Suma contra os Gentios. Volume II, p. 690-691.

CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Volume I. Edição Clássica, p. 53-55.

PINHEIRO, Maurício Mota Saboya. Experiência Religiosa e Garantia da Crença na Existência de Deus em Alvin Plantinga. Numen: revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 9, n. 1, p. 93-110.

VAN EYGHEN, Hans. There is no Sensus Divinitatis. Journal for the Study of Religions and Ideologies, vol. 15, issue 45 (2016): 24-40.




[1] AQUINO, Tomás. Suma contra os Gentios. Volume II, p. 690.
[2] AQUINO, Tomás. Suma contra os Gentios, p. 691.
[3] CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Volume I. Edição Clássica, p. 53.
[4] CALVINO, p. 55.
 

Bibliografia

ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. Rev. atual. São Paulo: Moderna, 2003.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 12ª ed. São Paulo: Paulus, 2001