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terça-feira, 28 de junho de 2016

Agostinho: Principais Ideias



             PRINCIPAIS PROBLEMAS DA FILOSOFIA DE AGOSTINHO
        
         A ética de Agostinho surge de sua preocupação em conciliar a bondade de Deus com o mal no mundo. A influência do maniqueísmo na sua formação fez com que tivesse dificuldade de entender o dualismo bem/mal. Um problema moral era colocado sobre um pressuposto ontológico. Antes veremos outros temas importantes da filosofia agostiniana.
        
I - A SUPERIORIDADE DA RAZÃO

       Uma das influências que Agostinho recebeu da tradição filosófica foi o neoplatonismo, mediante as obras de Plotino (As Enéadas). A primeira forma de conhecimento que trata Agostinho é o autoconhecimento e é através da fé que o homem desenvolve sua faculdade de conhecer. A fé se torna condição para o conhecimento.
      Nesse sentido, pode se estabelecer um paralelo com Descartes. Agostinho afirma que podemos nos equivocar a cerca das coisas que nos rodeiam, mas não sobre a nossa interioridade. Se eu sou capaz de me enganar, eu existo. Nas palavras de Agostinho: “não te poderias enganar de modo algum, se não existisses” (AGOSTINHO,). O fundamento da certeza está na consciência do indivíduo.
Por serem três as realidades: o ser, o viver e o entender. É verdade que a pedra existe e o animal vive. Contudo, ao que me parece a pedra não vive. Nem o animal entende. Entretanto, estou certíssimo de que o ser que entende possui também a existência e a vida. É porque não hesito em dizer: o ser que possui essas três realidades é melhor do que aquele que não possui senão uma ou duas delas. (De lib. arb. II, 3).

      A teoria do conhecimento de Agostinho se inicia com o anúncio de três realidades que sã também o ponto partido da verdade fundamental: a existência..
      Na obra “O Livre-Arbítrio”, Agostinho afirma que a superioridade do homem sobre os outros animais se dar por causa da razão. Ela constitui seu poder em superar a ferocidade dos animais. A razão é a verdade mais elevada no homem: “O que denominamos saber não vem a ser nada mais do que se perceber pela razão”.        
      Acima da razão está a verdade que julga e não é julgada. Esse movimento de busca no interior aproxima o homem cada vez mais de Deus. Portanto, Deus é o fundamento da verdade. Essas verdades que se encontram no espírito humano não provêm da experiência sensível.  Os sentidos são intérpretes da mente para conhecer as coisas exteriores. Ao gravar as imagens das experiências sensíveis na memória é que as comparamos e as juntamos, compreendendo a realidade. A memória funciona como “documentos das coisas anteriormente percebidas”, nas palavras de Agostinho.
      O domínio das ideias acontece com a iluminação divina. As ideias são os arquétipos de toda a existência da mente de Deus e a criação é a realização desses arquétipos (RODRÍGUEZ, 2015).

II - TEORIA DA ILUMINAÇÃO

      Em contraposição ao ceticismo, Agostinho sustenta que através da dúvida o pensamento age e o homem se reconhece como ser pensante e não pode negar a própria existência e nem duvidar da verdade, pois de qualquer forma já se encontra em contato com a verdade.  O homem é apenas um buscador da verdade, sua mutabilidade e sua imperfeição o impede de conter a verdade em si. A verdade não pode plenamente revelada ao homem no tempo. Deus é quem transmite para a inteligência do homem. Na própria consciência, ele pode encontrar Deus.
      A teoria da iluminação é a afirmação de que o homem não possuindo por si mesmo a verdade, ele a recebe de Deus como uma luz que ilumina a mente e a permite aprender.

A Teoria da Iluminação Divina é apresentada por Santo Agostinho como ação direta de Deus na mente humana, de modo que o homem possa chegar ao verdadeiro conhecimento, sendo que é essa luz divina que possibilita ao homem encontrar Deus e alcançar a felicidade (SOUSA, 2009).


      Como Platão na Teoria da Reminiscência, algumas ideias fundamentais não derivam da realidade sensível. A fonte das ideias não é o mundo sensível, é para Agostinho o próprio Deus (SKUOLA, 2015).

III - LINGUAGEM E VERDADE

      No De Magistro estabelece-se uma relação entre conhecimento e linguagem. Esta se manifesta incapaz de expressar todo o saber.  O discurso não ensina. E à medida que vamos confrontando nossas opiniões com as opiniões alheias, e mudamos de opinião, estamos consultando nossa verdade interior.
      A linguagem por si mesma não é capaz de transmitir conhecimento. Mas é indispensável ao ensino. O conhecer supõe algo anterior à linguagem. As palavras são sinais exteriores do conhecimento, a verdade é garantida pelo mestre interior. As condições do conhecimento não são de ordem lingüística e sim metafísica. É o conhecimento que confere sentido à linguagem.
      Agostinho considera uma das funções da linguagem ensinar. E ensinar é rememorar e fixar melhor nossos argumentos. Porém, não é a linguagem que traz o conhecimento, é a verdade interior. A iluminação provém do mestre interior (ALVES, 2012).

IV – MAL E A MORAL

      Para Agostinho de Hipona (354-430), o mal pode ser compreendido em três sentidos: metafísico-ontológico; moral e físico. O mal ontológico não existe porque as coisas criadas são boas, o que as limita é seu grau de imperfeição. O mal físico é conseqüência do pecado original, são as doenças, sofrimentos. Já o mal moral depende inteiramente das escolhas humanas.
    Então, Agostinho considera que todas as coisas criadas são boas. A corrupção é que as torna más. Nada é mal por si. Isso equivale a dizer que o mal não é uma substância. Em sentido absoluto o mal não existe.
    Agostinho durante certo tempo se confundiu inicialmente sobre este tema porque defendia a Teoria das duas Substâncias (Maniqueísmo). Em As Confissões, ele comenta como superou a posição do maniqueísmo: “Vi que éreis infinito, mas não daquele modo”.
    Cada coisa na natureza se adapta ao seu lugar e ao seu tempo. Existe uma ordem e uma hierarquia entre as criaturas. O mal acontece dentro da liberdade humana. O mal é assim definido como uma perversão da vontade desviada da substância suprema. A vontade se volta para coisas baixas.
    Ao desviar das coisas do alto o homem peca e comete o mal. Para que ele permaneça na virtude é precisa deixar sua inteligência elevar o seu ser até Deus. (Confissões VII, nº 12, p.118).
Agostinho de Hipona considera a felicidade (beatitudo) como um desejo humano universal. E introduz no debate ético a noção de livre-arbítrio. Ele contrapõe assim o intelectualismo moral da Sócrates. A vontade ganha um papel específico na compreensão da ação moral.
A liberdade humana é própria da vontade e nela reside a fonte do pecado. A pessoa peca usando sua liberdade para satisfazer sua má vontade. Agostinho divide os bens que desejamos em inferiores e superiores. Estabelece uma hierarquia cujo bem maior é Deus. Como há muitos bens a vontade pode tentar a escolher bens inferiores.
O homem não é autônomo na sua vida moral, o que conduz seus atos é a vontade, mesmo sabendo que ele pode querer o mal. A razão e a vontade são faculdades de um mesmo espírito, porém, são independentes. A razão tem a faculdade de conhecer os bens, mas o que escolhe é a vontade.
Neste ponto, entra a noção de graça divina. É o auxílio que o homem recebe para se perseverar na prática do bem. Já que sua vontade se enfraqueceu com o pecado original.
Agostinho elabora sua teoria moral procurando explicar a origem do mal que está justamente no uso da liberdade. Quando o homem se fecha no amor a si, convertendo-se para a criatura e se afastando de Deus, abusa de sua liberdade realizando escolhas indevidas.

V – ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE O MANIQUEÍSMO

         O maniqueísmo era uma doutrina segundo a qual a força cósmica do mal é igual em poder à força cósmica do bem. O mal estará sempre competindo e contrabalançando com o bem no mundo. O movimento foi fundado por Maniqueu, morto crucificado em 277 na Pérsia. Segundo os maniqueístas, a matéria é intrinsecamente má e o espírito bom.

domingo, 19 de junho de 2016

Visões contemporâneas do homem

Crédito: Blog www.filosonewton.blogspot.com.




1.        Concepções contemporâneas do homem (séc. XIX – séc. XX)

         No romantismo, a dimensão dos sentimentos e das emoções é colocada em relevo na concepção de homem. O Eu sensível supera o Cogito racional e a universalidade lógica. A antropologia romântica valoriza o homem no particular.
         Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) apresenta uma antropologia eminentemente existencial.  A sua preocupação é saber o caminho que levou o homem do estado de natureza para o estado de sociedade. A sua visão nega toda transcendência. Tudo se faz na imanência.
         A concepção hegeliana integra traços fundamentais do homem cristão e do homem moderno.  O homem se situa em relação à natureza. Em relação ao mundo natural de modo imediato e ao mundo propriamente humano pela mediação.  Ele se relaciona também com a cultura (Bildung) e só se torna indivíduo à medida que participa da manifestação do Espírito. O homem é um ser que exerce progressivamente a liberdade na história.
         Por fim, o homem está em relação com o Absoluto, é nele que se manifesta o Espírito por meio de suas atividades como a arte, a religião e a filosofia. O Espírito subjetivo concretizado no indivíduo em si é Espírito natural; para si consciência; em si para si é sujeito. Em síntese, a idéia da filosofia do Espírito objetivo é a clássica “torna-te aquilo que és”.
         Na concepção de Marx, o homem se define pela forma que vive a sua vida.  A natureza humana se caracteriza pelas suas necessidades biológicas, psicossociais e culturais. São conceitos importantes para entender essa visão de Marx a necessidade, satisfação e alienação.
          Há dois tipos de alienação, a espiritual que diz respeito à deficiência de ser por não alcançar a auto-realização e a alienação social representada pelo domínio do produto sobre seu criador. A alienação se relaciona com a possibilidade de realização de suas necessidades. A separação entre necessidade e capacidade de realização na pessoa é chamada de coisificação. O homem acontece dentro de sua realização histórica e social.
         O trabalho é a atividade principal da satisfação das necessidades naturais do homem. Na situação histórica há uma inadequação entre as forças e as relações de produção. As produções humanas reais ou imaginárias ganham independência e se opõem a seus produtores.

1.1.  O desenvolvimento das ciências humanas

         No século XIX, ocorre um rápido desenvolvimento das ciências humanas.  Augusto Comte inicia a Sociologia considerando a primazia da sociedade sobre o indivíduo. A antropologia se desenvolve na primeira metade do século XX. Suas raízes estão no pensamento de Sören Kierkegaard (1813-1855) e em Friedrich Nietzsche (1844-1900).
         Kierkegaard contribui com a noção de existência, de indivíduo, em oposição ao universal. Nietzsche, por sua vez, faz uma crítica da cultura e propõe uma nova idéia de homem. Sua reflexão passa pelas seguintes considerações:

o que foi o homem, ou seja, a sua aparição emergindo da natureza e da vida; o que o homem não é atingido pela doença da cultura e pelo ressentimento ou vingança contra a vida e o devir; finalmente o que o homem pode e deve ser, onde aparece o tema do homem como transição para o super-homem (VAZ, 1991, p. 133).

         Nietzsche opera em dois campos ao falar do homem: Na metafísica e na cultura. Metafisicamente, o homem está envolvido pela vontade em vista do poder e pelo eterno retorno do mesmo. Na crítica da cultura, estão o niilismo, a genealogia da moral e o anúncio do super-homem.
         O pensador alemão dissolve a imagem ocidental do homem. O dualismo cartesiano é superado a considerar a consciência apenas como instrumento de unidade do corpo.

2.   As antropologias contemporâneas

         Na idade contemporânea, temos diversos modelos antropológicos.
a)     Antropologia existencial – Na concepção kierkegaardiana, o indivíduo precede ao universal. Karl Jaspers (1883-1969) aponta a existência empírica do homem em confronto com a transcendência.  Heidegger também se torna uma fonte importante para a construção de uma antropologia existencial. Jean Paul Sarte (1905-1979) expressa sua antropologia pelas noções de ser: o em-si (a coisa) e o para-si (a consciência).
b)     Antropologia personalista – A categoria de pessoa é muito presente em muitas antropologias contemporâneas. O personalismo de inspiração cristã tem como princípio a afirmação de um Deus pessoal como modelo e fim do homem.  Jacques Maritain (1882-1973) e Emmanuel Mounier (1905-1950).
c)     Antropologias materialistas - Essas antropologias consideram os princípios naturais mais influentes do que os culturais no homem. Ernest Bloch (1885-1977) é um desses filósofos. Geralmente, são de inspiração marxiana. Henri Bergson e Teilhard Chardin são representantes espiritualistas que têm os pressupostos naturais por base de suas antropologias.
      Por fim, o homem se mostra pluriversal. Assim diversos aspectos do homem podem ser observados de cada vez e de cada situação.

3. Antropologias contemporâneas: alguns aprofundamentos

3.1.     Nietzsche: A antropologia do Übermensch

Friedrich Nietzsche empenha-se numa crítica a moral tradicional, aos valores do homem construídos pela sociedade ocidental. Essa visão de homem forjada pelo cristianismo é marcada pelas expressões ‘animal de rebanho’, ‘espírito gregário’, ‘fraco’ e ‘ressentido’.
É importante notar que em Nietzsche a concepção metafísica de homem é transformada em orgânica. Em a A Gaia Ciência, o filósofo de Röcken estabelece uma diferença entre o homem contemplativo e o homem elevado: “Os homens superiores distinguem-se dos inferiores por verem e ouvirem incalculavelmente mais e por verem e ouvirem pensando – e justamente isso distingue o homem do animal e os animais superiores dos inferiores”  No aforismo 301, o pensador contrapõe o homem ativo ao contemplativo dizendo que nós não nos contentar simples em contemplar a existência porque somos criadores, tudo que está aí é produto de nossa percepção.
O homem nietzschiano envolve a força contemplativa e a força ativa. Seu papel na existência não se restringe a contemplação da obra, mas a ação como doação de sentido a vida. Além disso, esse homem da ação está além do sentido comum, ele é dotado de uma potência criadora.
A antropologia de Nietzsche é uma conclamação ao homem racional para a totalidade do devir, para o reconhecimento da fatalidade da existência.  O projeto nietzscheano do übermensch vai contra toda a pretensão moral de melhoramento do homem de base socrático-platônica. O além-do-homem no Assim Falou Zaratustra não é um destino, mas um estado ainda não sentido, um estado latente do homem (APOLINÁRIO, 2016).[1]

3.2.     O peso da existência na antropologia de Kierkegaard

No século XIX, teve início um processo de reação as antropologias que tinham uma visão metafísica e racional do homem.
“A concepção de homem na filosofia kierkegaardiana nos lança um desafio: ousarmos a ser nós mesmos. Correndo todos os riscos, mesmo quando este risco é o risco do fracasso.
Pois, não existe eu autêntico sem assumir esta condição: ser a si próprio, reconhecer-se como dependente do poder que o pôs.
Søren Kierkegaard é um dos mais violentos opositores de Hegel. Ele critica o hegelianismo por priorizar o universal em detrimento do singular. O universal é racional, abstrato, eterno e devorador do indivíduo, é apenas a abstração do singular. Só o singular é o existente. Partindo deste princípio o filósofo toma para si a missão de valorizar o singular.
Este para Kierkagaard é o homem.
A existência humana é compreendida na categoria da possibilidade. Todas as possibilidades são possibilidades de sim e de não. Tudo está sob a ameaça do nada. Através desta condição o homem se relaciona com o mundo, desta instabilidade nasce a angústia.
Desta, ele tem como saídas o suicídio ou a fé (aceitação de sua condição). A existência autêntica passa pelo assumir a sua condição e a sua identidade.
Em relação a si mesmo o homem experimenta o desespero. Porque ele pode querer ou não querer ser a si próprio. Assumir a subjetividade é tarefa difícil. O homem é uma síntese de finito e infinito. Ele deve procurar um equilíbrio entre esses dois pólos. Corre duplo risco: pelo infinito corre o risco de se perder no imaginário e pelo finito, no fechamento. Este dilema de ser ou não, põe o indivíduo na condição de desesperado. Aqui a saída é a aceitação de sua identidade de dependente e limitado.
A situação humana em kierkegaard é um dilema, que só pode solucionado pela fé. O filósofo resgata o homem do universalismo abstrato. Valoriza a sua existência no seu aspecto de finitude, incluindo o sofrimento, na sua dupla patologia: a angústia e o desespero. A filosofia kierkegaardiana salva o homem das garras dos sistemas, ao priorizar o indivíduo como abertura para as possibilidades, dotado de liberdade e caracterizado por sua individualidade inalienável.” (GAMITO, 2004)[2].

3.3.     Heidegger e a existência do homem

Martin Heidegger define o homem não pela racionalidade, mas pela sua existência.  Por isso, a sua compreensão do homem passará pelo aspecto ontológico. O pensador alemão busca o sentido do ser. Ele é o único ente que tem consciência do ser.
O homem é ser-aí (Dasein). É ser individual com as possibilidades de vir a ser. As coisas são, mas somente o homem existe. A existência é o ato de projetar, de se utilizar das coisas e não somente contemplá-las. Quando descobre o que pode se tornar, ele atinge a autocompreensão.
         Não há atributo estável que descreva o homem. Este homem está sempre em uma dada situação.
Nesta perspectiva, o Ser-aí (ou homem) é "o ente que depende de seu ser"10 e "a existência é decidida, o sentido da posse ou da ruína, somente por cada Ser-aí individual"11. O homem enquanto Ser-aí não é alguém absoluto de forma objetiva, mas ele é o único ente que depende de seu ser. O ser não pode ser definido enquanto objetividade, o mesmo é mistério que desvela a existência do homem no mundo e o projeta a partir de suas decisões. Por isso, o homem torna-se existência consciente e protagonista de sua história quando se abre a verdade de si mesmo, dada por meio da revelação do ser. (SANTOS, 2016).[3]

3.4.     Sartre, existência e liberdade

Sartre se insere na corrente existencialista. O existencialismo teve seu início no século XIX com Soeren Kierkegaard e tem como idéia principal a defesa da individualidade do homem e da sua responsabilidade de dar sentido à vida mesmo diante dos obstáculos.
         Jean Paul Sartre (1905-1980) sustenta que o homem faz a si mesmo.  Não existe determinismo sobre a realidade humana, é a liberdade que se determina. A principal obra de Sartre é o Ser e o Nada.
         O “em-si” (en-soi) é o mundo das coisas materiais. Diz respeito a qualquer objeto que existe no mundo. Ele está além da afirmação e da negação e é pleno de si mesmo. As condições pertencem à consciência. O homem ao conhecer não acrescenta nada ao “em-si”.
         Já o homem é o “para-si” (pour-soi) porque é um ser que tem consciência de si e do mundo. Ele estabelece relações funcionais entre os “em-si” e modifica o mundo. Cada homem só tem como imutável o que já viveu, mas a partir do presente tudo pode ser mudado.
         O ser “em-si” é o ser dos fenômenos, enquanto o ser “para-si” é o ser da consciência. O homem é o centro da filosofia porque a existência precede a essência. Apenas o homem tem existência, os outros seres apenas são.  “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz a si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo” (Sartre, 1987, p. 6).
         Nada pode ser explicado por uma natureza humana porque o homem é livre e não existe determinismo. O legislador do destino humano é o próprio homem. Ele aparece no mundo e num segundo homem é que ele se define.
         O passado do homem é marca do “em-si” e não pode ser modificado. Porém, o homem não é passado, ele é ser “para-si” e se faz no presente. Quanto  ao futuro, ele estará sempre em busca de completude.
         Um tema caro para Sartre é a liberdade. Esta é o fundamento do ser. Com ele escolhe o que projeta ser e não fugir da responsabilidade de escolher, pois a recusa já é um modo de escolha. A liberdade implica agir com responsabilidade.
         A perspectiva ateia de Sartre leva a outra consequência para a liberdade humana. Não há um Deus que determina a natureza do homem. “Portanto, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira” (Sartre, 1987, p. 7). A liberdade envolve o meio social, e este meio pode também limitar essa liberdade.
         Nada poderá isentar o homem de sua responsabilidade.  Pela má-fé o homem mente para si, fugindo de suas responsabilidades. Aquele inventa determinismos para si age de má-fé.

4.    As dimensões do homem

      Mondin (2008) aborda o problema da unidade e da diversidade do homem analisando as suas dimensões:
a)     Homo somaticus –  O homem possui um corpo.
b)     Homo vivens – O homem como ser vivo é uma verdade evidente, mas saber a sua origem e sua natureza.
c)     Homo sapiens – O homem possui capacidade de conhecer, pensar, reconhecer e rememorar.
d)     Homo volens – O homem é dotado de vontade, capaz de decisão.
e)     Homo loquens – Seus pensamentos, suas vontades e decisões podem ser comunicados
f)      Homo socialis – O homem vive em comunidade, ele transforma o seu meio através da socialização.
g)     Homos culturalis – Por meio de sua relação com o mundo, o homem produz cultura. É como ele humaniza o mundo.
h)    Homo faber – O homem é essencialmente artífice, através da técnica o homem satisfaz suas necessidades.
i)      Homo ludens – O homem é jogador.
j)      Homo religiosus – O homem tem fé.

REFERÊNCIAS
APOLINÁRIO, José Antônio Feitosa. As andanças do homem superior em Nietzsche. Disponível em: http://www.cadernosnietzsche.unifesp.br/home/item/165-as-andan%C3%A7as-do-homem-superior-em-nietzsche. Acesso em 17 jun. 2016.

CHOZA, Jacinto. Manual de Antropologia Filosofica. Madri: Ediciones Rialp S. A., 1988.

GAMITO, José Aristides da Silva. A condição humana em Kierkegaard. Disponível em:  http://docslide.com.br/documents/a-condicao-humana-em-kierkegaard.html. Acesso 17 jun. 2016.

MONDI, Gian Battista. Elementos de Antropologia Filosófica.
SANTOS, Luciano Gomes dos. O homem na filosofia de Martin Heidegger. Disponível em: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/22/artigo87364-1.asp. Acesso em 16 jun. 2016.

VAZ, Henrique Lima. Antropologia Filosófica I.  São Paulo: Edições Loyola, 1991.



[1] APOLINÁRIO, José Antônio Feitosa. As andanças do homem superior em Nietzsche. Disponível em: http://www.cadernosnietzsche.unifesp.br/home/item/165-as-andan%C3%A7as-do-homem-superior-em-nietzsche. Acesso em 17 jun. 2016.
[2] GAMITO, José Aristides da Silva. A condição humana em Kierkegaard. Disponível em:  http://docslide.com.br/documents/a-condicao-humana-em-kierkegaard.html. Acesso 17 jun. 2016.
[3] SANTOS, Luciano Gomes dos. O homem na filosofia de Martin Heidegger. Disponível em: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/22/artigo87364-1.asp. Acesso em 16 jun. 2016.

Antropologia na modernidade

1.        A concepção bíblico-cristã e medieval do homem (séc. I – séc. XV.)

1.1.  A imagem do homem no cristianismo

        No período medieval, predomina uma visão de homem construída pela influência do cristianismo. Caracterizam-se essa visão antropológica:
a)O homem é uma unidade radical compreendido com imagem de Deus.  O homem é carne (basar) marcado pela transitoriedade e igualmente espírito (rûah) assinalado com a vitalidade e com a capacidade de se relacionar com Deus. No seu coração (leb) está a sede das paixões e dos afetos.
b)   A manifestação do ser e do destino do homem ocorre progressivamente e dentro de uma perspectiva soteriológica.
c)  Os escritos do Novo Testamento continuam e aprofundam essa constituição do homem na tricotomia soma, psyché e pneûma.
        As influências gnósticas influenciaram o cristianismo inicial com a oposição entre espírito e matéria. Em seguida, os pais da Igreja procuraram refletir sobre essa natureza do homem a partir da doutrina cristã. Nessa fase ocorre o encontro entre cristianismo e platonismo.
        O primeiro a desenvolver o tema foi Ireneu de Lião (século II) na obra Adversus Haereses na qual define o homem como reflexo da glória de Deus. No século IV, Gregório de Nissa escreve sobre a constituição do homem na obra De hóminis opifício. No século seguinte, Nemésio de Emesa escreve De natura hóminis que representará uma síntese da antropologia patrística grega e que influenciará o medievo latino.
        A contribuição decisiva, inovadora e influente virá de Agostinho de Hipona (354-430). A antropologia augustiniana teve algumas influências: a) Neoplatonismo – o homem interior é coroado pela mens e nesse interior Deus se faz presente; b) Antropologia paulina- Agostinho introduz na relação entre pecado e graça o conceito de liberdade; c) Gênesis – o tema do Deus criador. O homem é visto como imagem de Deus e destinado a Deus. Ele ser uno, itinerante e ser para Deus.

1.2.  A concepção de homem no medievo

        A Idade Média terá três fontes para constituir a sua antropologia: As Escrituras, os escritos patrísticos e os filósofos. A influência de Agostinho se prolonga até o século XII, a partir daí é Aristóteles que se torna referência. Por a antropologia medieval se fará mediante uma tensão entre agostinismo e aristotelismo tendo como referência a Bíblia.
        Os aspectos da historicidade e da corporalidade humana se destacam. O homem é um ser histórico e tem seu destino determinado por essa situação. Toda trajetória pessoal se insere num âmbito histórico maior, a historia salutis. O problema da união do corpo e da alma está presente em toda a reflexão.
        Tomás de Aquino (1225-1274) define o homem como animal rationale, aquele que na hierarquia dos seres está na intersecção entre o espiritual e o corporal; o homem é criatura, imagem e semelhança de Deus. O filósofo sustenta a unidade hilemórfica do homem. Mas mantém a precedência da alma sobre a matéria como parte criada imediatamente por Deus. A anima intellectiva é a única forma substancial do composto humano. Desta unidade surgem suas potencialidades de agir e de fazer.

        O homem se encontra numa posição mediadora entre o tempo e a eternidade e assim ao se abrir à eternidade participa da dimensão divina e espiritual.

Antropologia no período medieval


Antropologia Filosófica

ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA[1]

José Aristides da Silva Gamito[2]

1.        Introdução

        Antropologia Filosófica procura responder a questão sobre o que é o homem.  É uma pergunta que se encontra entre dois campos o da natureza e o da cultura. As tarefas principais dessa disciplina filosófica são: a) elaborar um conceito de homem considerando as tradições filosóficas; b) buscar a unidade do homem diante de suas múltiplas dimensões; c) elaborar uma sistematização filosófica que responda à pergunta sobre a definição do homem (HERRERO).
        Antropologia se coloca diante do desafio de o homem ser simultaneamente o sujeito e o objeto de seu estudo.
        Em síntese, a antropologia filosófica estuda a origem, natureza e lugar do homem no universo. O primeiro a utilizar o termo antropologia foi o humanista Otto Casmann na obra Psychologia Anthropologica sobre o problema do corpo e da alma. O estudo da antropologia no sentido contemporâneo tem seu início na década de 20.

2.        A concepção clássica do homem (séc. VI a. C. – séc. VI d. C.)

        A concepção sobre o homem que Vaz (1991) denomina clássica tem seu início nos séculos VIII e VII na Grécia Antiga e se unirá mais tarde a elementos romanos, resultando daí a concepção greco-romana.  
        Nessas primeiras concepções dois traços fundamentais se destacam: O homem compreendido como um animal que domina o discurso (zoon logikon) e como um animal que vive em sociedade (zoon politikon).  O domínio do discurso possibilita ao homem estabelecer normas e entrar em consenso para a vida em sociedade.
        A gênese dessa visão grega está no período arcaico. Vaz (1991) distingue algumas linhas que levantam traços culturais dessa antropologia. Os gregos antigos que dividiam um cosmo entre mundo dos deuses (theoi) e mundo dos mortais (thanatoi). A pretensão do ser humano de participar dos atributos divinos é aplacada com o destino (moira) que contém a possibilidade da tragédia.
        O homem grego admira a ordem do universo e a toma como referência para a ordem que deve reinar na polis. O estilo de vida proposto por Platão e Aristóteles é o da vida contemplativa (bios theoretikós). Esses traços cosmológicos influirão na necessidade de se ter uma ciência do agir corretamente, moderadamente, a ética. É preciso conciliar a liberdade humana com a necessidade cósmica.
        Nietzsche atribui à alma grega a oposição entre apolíneo e o dionisíaco:

O apolíneo reflete o lado luminoso da visão grega do homem, a presença ordenadora do logos na vida humana, que a orienta para a claridade do pensar e do agir razoáveis. O dionisíaco traduz o lado obscuro (ctônico), onde reinam as forças desencadeadas do eros ou do desejo e da paixão (VAZ, 2004, p. 29).

        Em outras palavras, o dionisíaco representa a embriaguez criativa e a paixão sensual, a humanidade em plena harmonia com a natureza. Já o apolíneo é a visão de sonho e tentativa de expressar o sentido das coisas na medida e na moderação, explicitando-se em figuras equilibradas e límpidas.
        Toda a visão grega arcaica da vida é marcada pela idéia de excelência (areté). O herói guerreiro e civilizador é valorizado. Posteriormente, essa excelência se encarna no sábio. O tema do destino perpassa também essa transição entre o período arcaico e o clássico. A visão do destino como inexorável, que possui a tragédia latente em si, se transforma no moralismo. No período clássico, ao homem é cobrada responsabilidade pelo seu destino.



[1] Texto-base para aulas de Antropologia Filosófica em Itaperuna (RJ) em junho de 2016.
[2] Licenciado e bacharel em filosofia, pós-graduado em Docência do Ensino Básico, do Ensino Superior e pós-graduando em Língua Latina e Filologia Românica.
 

Bibliografia

ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 3ª ed. Rev. atual. São Paulo: Moderna, 2003.

CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 12ª ed. São Paulo: Paulus, 2001